Chega um momento da vida em que começamos a olhar para o tempo de uma maneira diferente.
Não sei exatamente quando isso acontece.
Talvez depois dos 50.
Talvez depois dos 60.
Talvez aconteça quando os filhos crescem, quando nos aposentamos, quando mudamos de cidade, quando perdemos alguém importante ou simplesmente quando a vida finalmente diminui um pouco o volume e conseguimos ouvir nossos próprios pensamentos.
O fato é que um dia olhamos para trás e percebemos:
já vivemos muita coisa.
E quase imediatamente surge outra pergunta:
o que queremos viver daqui para frente?
Olhar para trás não significa querer voltar
Existe uma diferença importante entre recordar e viver no passado.
Recordar faz parte da nossa história.
Existem lugares que nunca esquecemos.
Pessoas.
Amores.
Amizades.
Trabalhos.
Viagens.
Conquistas.
Fracassos.
Decisões certas.
E algumas decisões que hoje provavelmente tomaríamos de outra maneira.
Tudo isso nos trouxe até aqui.
Não precisamos apagar as partes ruins para reconhecer as boas.
Também não precisamos transformar o passado em um lugar perfeito.
Ele não foi.
Houve dias maravilhosos.
E houve dias muito difíceis.
A vida real sempre foi assim.
Algumas escolhas deram certo. Outras não.
Talvez uma das liberdades que a maturidade nos ofereça seja poder admitir isso.
Erramos.
Confiamos em pessoas que não mereciam nossa confiança.
Desperdiçamos oportunidades.
Falamos quando deveríamos ter ficado em silêncio.
Ficamos em silêncio quando deveríamos ter falado.
Gastamos energia com coisas que hoje parecem pequenas.
Trabalhamos demais em determinados períodos.
Talvez tenhamos deixado pessoas importantes esperando.
Também acertamos.
Construímos.
Criamos.
Aprendemos.
Ajudamos pessoas.
Amamos.
Fomos amados.
Superamos situações que, quando aconteceram, pareciam impossíveis de superar.
E continuamos aqui.
O passado não pode ser editado
Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais libertadoras da vida.
Não podemos voltar.
Não existe botão para desfazer.
Não podemos ter novamente 30 anos levando conosco a experiência que temos aos 60.
Se fosse possível, provavelmente faríamos muita coisa diferente.
Mas talvez também cometêssemos outros erros.
A vida não oferece segunda edição.
Ela oferece continuação.
E isso muda tudo.
Porque se não podemos alterar aquilo que já aconteceu, ainda podemos decidir o que faremos com aquilo que aprendemos.
O que realmente valeu a pena?
Essa é uma pergunta interessante para fazer quando já temos uma longa estrada percorrida.
Quando penso nas coisas que realmente permaneceram, percebo que muitas delas não têm relação com aquilo que parecia tão importante na época.
Alguns problemas que tiraram nosso sono desapareceram completamente.
Algumas pessoas que tentávamos impressionar nem fazem mais parte da nossa vida.
Objetos que desejamos durante meses foram comprados, utilizados e esquecidos.
Discussões que pareciam fundamentais perderam qualquer significado.
Enquanto isso, permanecem coisas aparentemente pequenas.
Uma conversa.
Uma viagem.
Um abraço.
Uma pessoa que acreditou em nós.
Um almoço em família.
Uma tarde qualquer que, por algum motivo, virou memória.
É curioso.
Passamos boa parte da vida correndo atrás de coisas grandes.
E quando olhamos para trás descobrimos que a memória guardou principalmente os pequenos momentos.
E então começamos a olhar para frente
Talvez essa seja a parte mais importante.
Refletir sobre o passado só faz sentido se essa reflexão nos ajudar a viver melhor o futuro.
Não importa se temos 50, 60, 70 ou 80 anos.
Enquanto existe vida, existe futuro.
Pode ser diferente daquele futuro que imaginávamos aos 20.
E provavelmente será.
Mas diferente não significa menor.
Ainda podemos conhecer lugares.
Aprender.
Ensinar.
Fazer amigos.
Mudar de cidade.
Começar projetos.
Escrever.
Plantar.
Viajar.
Estudar.
Amar.
Recomeçar.
Talvez algumas coisas precisem ser feitas mais devagar.
Tudo bem.
Devagar também é movimento.
O que ainda queremos viver?
Talvez valha a pena realmente responder essa pergunta.
Não como exercício filosófico.
Como planejamento de vida.
O que você ainda quer fazer?
Existe algum lugar que gostaria de conhecer?
Alguma pessoa que precisa procurar?
Alguma conversa que está adiando?
Algum projeto guardado?
Alguma coisa que sempre quis aprender?
Existe alguém de quem precisa se aproximar?
Existe alguém de quem talvez seja melhor se afastar?
Existe alguma coisa que precisa perdoar?
Ou alguma culpa da qual precisa finalmente se libertar?
São perguntas desconfortáveis.
Mas o tempo também serve para isso.
Talvez seja hora de carregar menos peso
Com o passar dos anos, começamos a entender que não precisamos levar tudo conosco.
Mágoas ocupam espaço.
Ressentimentos ocupam espaço.
Brigas antigas ocupam espaço.
Necessidade de aprovação ocupa espaço.
Relacionamentos que só produzem sofrimento ocupam espaço.
Existem pesos que carregamos durante tanto tempo que esquecemos que poderíamos simplesmente colocá-los no chão.
Nem tudo precisa acompanhar nossa próxima etapa.
Às vezes, seguir em frente exige deixar alguma coisa para trás.
Também precisamos aprender a dizer não
Durante muitos anos fazemos coisas porque esperam que façamos.
Participamos porque convidaram.
Aceitamos porque seria desagradável recusar.
Mantemos relações porque existem há muito tempo.
Seguimos determinados caminhos porque parecem socialmente corretos.
Com o tempo começamos a compreender que existe uma palavra extremamente importante:
não.
Não quero.
Não preciso.
Não me faz bem.
Não quero gastar meu tempo com isso.
Não é egoísmo.
É perceber que o tempo disponível não é infinito.
Depois de certa idade, tempo passa a ser patrimônio
Quando somos jovens, protegemos dinheiro.
Mais tarde aprendemos que precisamos proteger também o tempo.
Dinheiro pode voltar.
Tempo não.
Cada tarde desperdiçada em uma discussão inútil desapareceu.
Cada dia vivido tentando agradar alguém que nunca estará satisfeito desapareceu.
Cada hora dedicada a uma preocupação sobre algo que não podemos controlar desapareceu.
Talvez por isso, com a maturidade, paz passe a valer tanto.
Não porque desistimos da vida.
Mas porque finalmente entendemos o preço do nosso tempo.
Ainda há muito pela frente
Existe um perigo quando começamos a refletir sobre tudo que já vivemos.
Transformar reflexão em despedida.
Não precisa ser assim.
Olhar para trás pode ser exatamente o contrário.
Pode ser uma maneira de perceber quantas vezes já recomeçamos.
Quantas situações superamos.
Quantos caminhos apareceram quando imaginávamos que não existia saída.
Se conseguimos chegar até aqui carregando tudo aquilo que vivemos, talvez ainda exista muita estrada interessante pela frente.
Talvez os próximos anos não precisem ser os mais produtivos
Talvez precisem ser os mais conscientes.
Não precisamos provar mais nada para tanta gente.
Podemos escolher melhor onde gastar energia.
Podemos trabalhar porque gostamos.
Estudar porque temos curiosidade.
Viajar sem precisar mostrar.
Ficar em casa sem sentir culpa.
Conversar sem olhar o relógio.
Tomar café devagar.
Observar o dia.
Ajudar alguém.
Transmitir aquilo que aprendemos.
Talvez essa seja uma das funções mais bonitas da maturidade:
transformar experiência em sabedoria compartilhada.
Se pudesse conversar com quem eu era aos 30 anos...
Provavelmente teria muita coisa para dizer.
Diria para não se preocupar tanto.
Diria que algumas pessoas irão embora.
Outras aparecerão.
Diria que determinados problemas que parecem gigantes vão desaparecer.
Diria para cuidar da saúde.
Para guardar dinheiro.
Para viajar.
Para trabalhar, mas não viver exclusivamente para o trabalho.
Para abraçar mais.
Para não perder tanto tempo tentando convencer pessoas que decidiram não ouvir.
E talvez dissesse uma coisa muito simples:
preste atenção enquanto sua vida está acontecendo.
Porque ela acontece depressa.
Mas não posso conversar com quem eu era
Posso conversar apenas com quem sou hoje.
E talvez isso seja suficiente.
Posso olhar para aquilo que vivi.
Agradecer pelo que foi bom.
Aprender com aquilo que não foi.
Aceitar o que não pode mais ser alterado.
E perguntar:
E agora?
Essa pergunta ainda está aberta.
O próximo capítulo ainda não foi escrito
Talvez essa seja a melhor maneira de enxergar o futuro depois dos 60.
Grande parte do livro já foi escrita.
Existem capítulos dos quais temos orgulho.
Outros que talvez preferíssemos não reler.
Há personagens que permaneceram.
Outros desapareceram.
Alguns voltaram inesperadamente.
Mas existe uma coisa importante:
a história ainda não terminou.
Há páginas em branco.
E enquanto houver páginas em branco, ainda podemos escolher algumas coisas.
Onde queremos morar.
Com quem queremos estar.
Como queremos utilizar nosso tempo.
O que queremos aprender.
O que ainda desejamos conhecer.
Que lembranças queremos construir.
E, principalmente, quem queremos ser daqui para frente.
O tempo de refletir também é o tempo de escolher
Talvez a maturidade seja exatamente isso.
Olhar para trás sem morar no passado.
Olhar para frente sem exigir garantias.
E conseguir permanecer um pouco mais no presente.
Porque o passado já aconteceu.
O futuro ainda não chegou.
Mas esta manhã, esta tarde, esta noite...
estas ainda são nossas.
Então talvez seja hora de diminuir a pressa.
Escol
Nenhum comentário:
Postar um comentário