Depois que fomos morar no interior, comecei a perceber uma coisa curiosa:
o dia parece mais comprido.
É evidente que isso não acontece de verdade.
O relógio continua marcando as mesmas 24 horas. Uma hora continua tendo sessenta minutos e o calendário não ficou mais devagar porque mudamos de endereço.
Mas a percepção mudou.
No interior, consigo sentir com muito mais clareza onde termina a manhã, onde começa a tarde e quando a noite finalmente chega.
Parece que o tempo voltou a ter divisões.
E talvez durante muitos anos eu simplesmente não tenha percebido isso.
A manhã realmente parece uma manhã
Existe algo especial nas primeiras horas do dia no interior.
A luz entra diferente.
Os pássaros começam antes de nós.
Dependendo da época do ano, existe neblina sobre as montanhas.
O ar está mais frio.
A rua ainda está quieta.
Você prepara um café e, se não houver necessidade de sair correndo, consegue simplesmente observar o dia começando.
Isso parece banal.
Mas não é.
Durante muitos anos, para mim, manhã significava principalmente uma sequência de obrigações.
Acordar.
Tomar banho.
Café.
Carro.
Trânsito.
Compromissos.
Telefone.
Trabalho.
Quando percebíamos, já era meio-dia.
A manhã existiu no relógio.
Mas talvez não tenha existido para nós.
No interior aprendemos novamente a olhar para a luz
Nas grandes cidades, passamos boa parte do tempo dentro de ambientes.
Casa.
Elevador.
Garagem.
Carro.
Escritório.
Shopping.
Restaurante.
Outro carro.
Outra garagem.
Nossa relação com o horário passa a depender muito mais do relógio do que da natureza.
No interior, principalmente quando se vive próximo às montanhas, a luz volta a participar da rotina.
Você percebe o sol mudando de posição.
Percebe a sombra chegando em determinado ponto do quintal.
Percebe quando a temperatura começa a subir.
Percebe o vento da tarde.
E começa a descobrir algo que nossos antepassados conheciam perfeitamente:
o dia tem personalidade.
A tarde tem outro ritmo
Talvez essa seja uma das maiores diferenças que percebi.
A tarde não parece simplesmente uma continuação da manhã.
Ela tem outra temperatura.
Outra luz.
Outros sons.
O movimento das pessoas muda.
Os pássaros mudam.
As sombras ficam maiores.
Em determinados dias da Mantiqueira, as nuvens começam a crescer sobre as montanhas e podemos quase acompanhar a transformação do tempo diante dos olhos.
Você olha para o céu.
Observa.
Espera.
Talvez venha chuva.
Talvez não.
E há algo profundamente humano nisso.
Não estamos fazendo nada extraordinário.
Estamos apenas prestando atenção.
Talvez o tempo não esteja passando mais devagar
Talvez sejamos nós que finalmente diminuímos a velocidade.
Essa diferença é importante.
O tempo nunca acelerou.
Nós aceleramos.
Criamos agendas.
Notificações.
Compromissos.
Mensagens.
Reuniões.
Trânsito.
Prazos.
Redes sociais.
Televisão.
Celular.
E passamos a preencher praticamente todos os espaços vazios do dia.
Se temos cinco minutos livres, pegamos o telefone.
Se esperamos alguma coisa, abrimos uma tela.
Se estamos sozinhos, colocamos algum som.
Criamos uma vida na qual quase não existe intervalo.
E sem intervalo, talvez seja difícil perceber o tempo.
Contemplar não é perder tempo
Durante boa parte da vida somos ensinados exatamente o contrário.
Ficar parado parece improdutivo.
Olhar pela janela parece perda de tempo.
Sentar para tomar café sem fazer outra coisa parece desperdício.
Observar uma chuva chegando não produz dinheiro.
Assistir ao pôr do sol não resolve nenhuma pendência.
Mas talvez tenhamos confundido produtividade com vida.
Existe uma diferença enorme entre não fazer nada e estar presente.
Contemplar é estar presente.
É perceber onde você está.
É ouvir.
É observar.
É permitir que alguns minutos existam sem precisar transformá-los em alguma coisa útil.
Comecei a perceber coisas que antes passavam despercebidas
A direção do vento.
Uma árvore começando a florir.
O comportamento dos pássaros antes da chuva.
O frio chegando no final da tarde.
A mudança da cor das montanhas conforme o sol desce.
O silêncio depois de uma chuva forte.
O céu ficando avermelhado.
As primeiras estrelas aparecendo.
Nada disso começou a acontecer depois que mudamos para o interior.
Sempre aconteceu.
Nós é que talvez estivéssemos ocupados demais para perceber.
E então chega o final da tarde
Para mim, existe um momento particularmente bonito.
O sol começa a baixar.
A temperatura diminui.
As montanhas mudam de cor.
As sombras avançam lentamente.
Os pássaros fazem seus últimos movimentos antes da noite.
E parece existir uma pequena pausa entre aquilo que foi o dia e aquilo que será a noite.
Nas cidades grandes, muitas vezes atravessamos esse momento dentro de um carro.
Presos no trânsito.
Olhando para a lanterna traseira do veículo da frente.
No interior, quando podemos observar essa transição, descobrimos que o entardecer é quase um acontecimento.
E acontece todos os dias.
De graça.
A noite também voltou a ser noite
Outra coisa que percebi foi a escuridão.
Nas grandes cidades, a noite nunca chega completamente.
Há iluminação pública, prédios, letreiros, faróis, vitrines e uma luminosidade permanente refletida no céu.
No interior, dependendo de onde estamos, a noite pode realmente ficar escura.
E com a escuridão aparece algo que muita gente quase esqueceu:
o céu.
As estrelas.
A Lua.
As nuvens passando diante dela.
Às vezes você simplesmente fica alguns minutos olhando para cima.
Não está esperando nada acontecer.
E talvez seja justamente por isso que aquele momento seja tão bom.
Talvez seja por isso que o dia parece maior
Quando vivemos muitas experiências diferentes dentro de um mesmo dia, nossa memória encontra referências.
A manhã fria.
O café.
O sol aparecendo.
O calor do meio-dia.
A chuva da tarde.
O entardecer.
O jantar.
A noite silenciosa.
São pequenos capítulos.
Quando tudo acontece dentro da mesma sequência de trânsito, trabalho, telas e compromissos, esses capítulos podem desaparecer.
O dia vira um bloco.
E blocos passam depressa.
Depois dos 60, o tempo ganha outro significado
Quando somos jovens, pensamos no tempo como algo praticamente infinito.
Ano que vem.
Daqui a cinco anos.
Depois eu faço.
Um dia eu vou.
Com o passar dos anos, começamos a compreender o tempo de outra maneira.
Não necessariamente com tristeza.
Talvez com mais respeito.
Cada manhã deixa de ser simplesmente a preparação para alguma coisa que acontecerá depois.
A própria manhã já é alguma coisa.
Uma tarde tranquila não precisa produzir resultados para ter valor.
E assistir ao pôr do sol pode ser um programa perfeitamente válido.
Talvez amadurecer seja também aprender isso.
O relógio mede horas. Nós medimos momentos.
Essa é a conclusão a que cheguei.
Continuamos tendo exatamente 24 horas.
Mas existem dias que desaparecem.
E existem dias que parecem enormes.
A diferença talvez esteja na quantidade de momentos que realmente percebemos.
Quando presto atenção ao café da manhã, à temperatura, às montanhas, ao vento, à chuva e ao anoitecer, parece que vivi muitas coisas.
Mesmo sem ter saído de casa.
Talvez seja por isso que o tempo pareça esticar no interior.
Não porque ele passe mais devagar.
Mas porque estamos finalmente presentes enquanto ele passa.
Aprender a contemplar o dia
Hoje acho que uma das maiores riquezas de morar no interior foi reaprender a acompanhar o dia.
Não apenas consultar as horas.
Acompanhar.
Ver a manhã nascer.
Sentir a tarde chegar.
Observar o sol descer.
Perceber quando a noite toma conta das montanhas.
É uma experiência simples.
Talvez simples demais para o mundo em que vivemos.
Mas existe uma paz enorme em perceber que não precisamos preencher todos os minutos.
Alguns minutos podem simplesmente ser vividos.
O café pode esfriar um pouco.
O telefone pode esperar.
A mensagem pode ser respondida depois.
O sol está descendo atrás da montanha.
E ele não vai repetir exatamente aquele pôr do sol amanhã.
Então talvez valha a pena olhar.
Porque o tempo não parou.
O tempo nunca para.
Nós é que finalmente paramos para vê-lo passar.
E a vida segue.
Vida que Segue
Marcuss Silva Reis
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