segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Moramos na terra do lobisomem: os causos e mistérios de Joanópolis

 


Quando decidimos mudar para Joanópolis, procurávamos muitas das coisas sobre as quais tenho escrito ultimamente.

Silêncio.

Montanhas.

Uma vida mais tranquila.

Tempo para pensar.

Contato com a natureza.

Uma cidade pequena onde as pessoas ainda se conhecem pelo nome.

Encontramos tudo isso.

Mas descobrimos também que viemos morar em um lugar onde existe um morador muito mais famoso do que todos os outros.

Um sujeito que, segundo os causos, prefere sair à noite.

Principalmente quando a lua está cheia.

O lobisomem.

Sim.

Hoje moramos na terra do lobisomem.

Ou, para utilizar o título pelo qual Joanópolis ficou conhecida:

a Capital do Lobisomem.

Aqui o lobisomem está em toda parte

Quem chega a Joanópolis não demora muito para perceber.

O lobisomem aparece no artesanato.

Nas histórias.

Nas placas.

Nos estabelecimentos.

Nos eventos culturais.

Nas conversas.

E até uma enorme figura da criatura recebe quem chega à cidade.

Aquilo que poderia ser apenas uma antiga superstição acabou transformado em elemento da identidade cultural e turística do município.

E existe uma história interessante por trás disso.

Tudo começa com os causos

Antes da internet, da televisão e das redes sociais, histórias viajavam de outra maneira.

Eram contadas.

Um avô contava para o neto.

Um trabalhador rural contava para outro.

Uma família repetia aquilo que alguém dizia ter visto numa estrada.

E assim os causos atravessavam gerações.

No interior brasileiro, principalmente em regiões rurais, histórias de assombrações, sacis, mulas-sem-cabeça e lobisomens fizeram parte do imaginário popular durante muito tempo.

Joanópolis desenvolveu uma relação particularmente forte com o último deles.

Tão forte que a criatura acabou se tornando praticamente um cidadão honorário da cidade.

E um dos fundadores de Joanópolis entrou na história

Existe um episódio particularmente curioso associado a Anselmo Caparica, personagem ligado à própria formação do povoado.

Registros históricos da Câmara Municipal mencionam Caparica entre aqueles que participaram da organização do núcleo que posteriormente daria origem ao município.

Mas o folclore acrescentou outro capítulo à sua biografia.

Segundo uma história transmitida na cidade e posteriormente relatada por pesquisadores do folclore local, numa noite de tempestade Anselmo teria saído para socorrer um cachorro.

Para se proteger da chuva, teria colocado sobre o corpo um tecido ou pano felpudo.

Quando se abaixou para pegar o animal, um relâmpago iluminou a cena.

Imagine por alguns segundos.

Noite.

Chuva.

Pouca iluminação.

Um homem muito alto.

Coberto por algo que parecia pelo.

Abaixado sobre um animal.

Um relâmpago.

Para quem observava à distância, a conclusão teria sido imediata:

“Seu Anselmo é lobisomem!”

Verdade?

Lenda?

Um acontecimento real que cresceu a cada vez que foi contado?

Talvez justamente aí esteja a beleza do folclore.

Em 1983, o lobisomem ganhou atenção acadêmica

A história poderia ter permanecido apenas nas conversas dos moradores.

Mas aconteceu algo importante.

A folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima, ligada a uma família tradicional de Joanópolis, desenvolveu em 1983 um trabalho dedicado aos relatos sobre lobisomens existentes na região.

Ela pesquisou e registrou histórias contadas pelos moradores.

Esse trabalho posteriormente resultaria no livro Lobisomem: Assombração e Realidade.

Ou seja, alguém decidiu fazer algo extremamente importante para a memória de uma comunidade:

ouvir os mais velhos antes que suas histórias desaparecessem.

O lobisomem saiu das estradas e foi parar na televisão

A história ganhou outra dimensão em 1998.

Uma campanha publicitária nacional sobre lendas brasileiras utilizou Joanópolis como cenário para o tema do lobisomem, inclusive com participação de moradores.

A exposição ajudou a tornar nacionalmente conhecida uma tradição que até então estava muito mais associada à memória regional.

Foi nesse contexto que também surgiu a Associação dos Criadores de Lobisomem.

Calma.

Ninguém cria lobisomem no quintal.

Pelo menos oficialmente.

A proposta da associação é preservar o folclore, registrar histórias e utilizar esse patrimônio cultural como forma de divulgação da cidade.

E acho essa ideia extraordinariamente inteligente.

O monstro virou amigo

Talvez essa seja a parte de que mais gosto.

O lobisomem tradicional é uma criatura assustadora.

Um homem amaldiçoado que se transforma em fera.

Mas Joanópolis conseguiu fazer uma espécie de segunda transformação.

Depois de homem virar lobisomem...

o lobisomem virou personagem da cidade.

Deixou de ser apenas algo que provocava medo nas crianças e passou a aparecer no artesanato, no turismo e nas manifestações culturais.

Hoje existe quase uma relação afetiva entre Joanópolis e seu lobisomem.

O bicho que deveria assustar turistas acabou ajudando a atraí-los.

A cidade assumiu sua própria lenda

Isso ficou ainda mais evidente com iniciativas culturais recentes.

Em 2025, Joanópolis realizou o Festival da Lua Cheia, reunindo música, cultura caipira, oficinas, documentários e, naturalmente, contação de causos relacionados ao lobisomem.

Entre as atividades houve inclusive uma apresentação dedicada ao “Lobisomem como personagem em Joanópolis”.

É interessante observar isso.

Uma lenda que durante décadas circulou oralmente entre famílias e moradores passou a integrar formalmente a agenda cultural da cidade.

O folclore deixou de ser apenas memória.

Virou patrimônio vivo.

E morar aqui torna tudo mais divertido

Depois que você mora em Joanópolis, começa a olhar para determinadas coisas de maneira diferente.

Uma estrada rural à noite já não é simplesmente uma estrada rural.

Uma neblina descendo sobre as montanhas ganha outra atmosfera.

Um cachorro latindo insistentemente de madrugada...

Bem.

Melhor não investigar.

E numa noite de lua cheia, principalmente depois de ouvir alguns causos antigos, nossa imaginação começa a trabalhar.

Você sabe racionalmente que está ouvindo um animal no mato.

Mas uma pequena parte da cabeça pergunta:

“Será?”

É exatamente aí que a lenda continua viva.

Folclore não precisa ser verdadeiro para ser importante

Esse talvez seja o ponto central.

Não precisamos acreditar literalmente na existência de lobisomens para compreender a importância dessa história.

Folclore é memória coletiva.

É a maneira pela qual comunidades transmitiram medos, valores, crenças e experiências antes que tudo pudesse ser gravado, fotografado e colocado na internet.

Os causos contam muito sobre as pessoas que os contavam.

Sobre como viviam.

Sobre aquilo que temiam.

Sobre a relação que possuíam com a mata, com a noite, com os animais e com o desconhecido.

Por isso preservar uma lenda também significa preservar uma parte da história de um povo.

Hoje entendemos melhor o que significa morar no interior

Recentemente escrevi que numa cidade pequena todo mundo sabe quem é todo mundo.

O padre.

O prefeito.

O padeiro.

O advogado.

O pessoal do cartório.

Os comerciantes.

Os personagens da cidade.

E Joanópolis ainda acrescenta mais um à lista.

O lobisomem.

Talvez seja justamente isso que torne pequenas cidades tão interessantes.

Elas possuem personalidade.

Não são apenas conjuntos de ruas e casas.

Possuem histórias.

Apelidos.

Personagens.

Lendas.

Memórias.

Quando a lua cheia aparece sobre a Mantiqueira...

Existe algo especial numa noite de lua cheia na serra.

As montanhas viram enormes silhuetas.

A temperatura cai.

As estradas rurais ficam silenciosas.

A luz da Lua atravessa as árvores.

Para quem passou décadas vivendo sob a iluminação permanente de uma grande cidade, é uma experiência completamente diferente.

E quando você sabe que está justamente na cidade conhecida como Capital do Lobisomem, a imaginação inevitavelmente participa da paisagem.

Talvez algum morador mais antigo tenha um causo.

Talvez conheça alguém que conhecia alguém que viu alguma coisa.

Talvez jure que aconteceu.

E você pode acreditar.

Pode duvidar.

Pode rir.

Não importa.

Por alguns minutos, você participa da história.

E agora também somos moradores da terra do lobisomem

Quando chegamos, éramos apenas mais um casal vindo de fora em busca de uma vida diferente.

Pouco a pouco fomos conhecendo a cidade.

As pessoas.

Os lugares.

Os costumes.

As histórias.

E hoje acho divertido dizer:

moramos na terra do lobisomem.

Não sei se algum dia encontrarei um.

Confesso que não estou fazendo muito esforço para isso.

Se ouvir alguma coisa estranha numa estrada rural em noite de lua cheia, provavelmente continuarei dirigindo.

A curiosidade tem limites.

Mas gosto de saber que essa história existe.

Gosto de morar numa cidade que preserva seus causos.

Que consegue rir de si mesma.

Que transformou uma antiga criatura assustadora em símbolo de identidade.

Porque talvez seja exatamente disso que uma comunidade seja feita.

Não apenas de ruas.

Não apenas de prédios.

Não apenas de habitantes.

Mas de histórias que alguém contou...

que outro resolveu repetir...

e que um dia passaram a pertencer a todos.

Então, se algum dia você vier visitar Joanópolis e encontrar um lobisomem pelo caminho, não se assuste.

Talvez ele seja apenas mais um morador conhecido da cidade.

E provavelmente...

todo mundo já sabe quem ele é.

🌕🐺

E a vida segue.

Marcuss Silva Reis
Vida que Segue

Fontes de consulta

Câmara Municipal da Estância Turística de Joanópolis — História do Município.

Prefeitura Municipal da Estância Turística de Joanópolis — Festival da Lua Cheia e manifestações culturais relacionadas ao folclore local.

LIMA, Maria do Rosário de Souza Tavares de. Lobisomem: Assombração e Realidade.

Estudos acadêmicos sobre o uso do imaginário do lobisomem como patrimônio cultural e produto turístico de Joanópolis.

Reportagens e registros históricos sobre a Associação dos Criadores de Lobisomem e a tradição oral joanopolense.

domingo, 11 de outubro de 2026

Às vezes parece Sucupira: o divertido mundo de morar numa cidade pequena

 



Morar numa cidade com aproximadamente 13 mil habitantes é uma experiência sociológica interessante.

Principalmente para quem passou boa parte da vida em grandes centros.

Na cidade grande, podemos morar vinte anos no mesmo prédio e não saber o sobrenome do vizinho.

No interior acontece praticamente o contrário.

Todo mundo sabe quem é todo mundo.

Você conhece o padre.

Sabe quem é o prefeito.

Conhece o dono do cartório.

O advogado.

O farmacêutico.

O médico.

O dono da padaria.

O mecânico.

O rapaz do posto.

E depois de algum tempo começa a acontecer algo ainda mais curioso:

eles também sabem quem você é.

Bem-vindo a Sucupira

Às vezes observo determinadas situações e me lembro de O Bem-Amado.

A fictícia Sucupira, criada por Dias Gomes, caricaturava brilhantemente aquela cidade pequena brasileira onde política, religião, comércio, fofoca, amizade, rivalidade e vida cotidiana aconteciam praticamente no mesmo palco.

Naturalmente, estou fazendo uma brincadeira.

Não temos Odorico Paraguaçu andando pela praça fazendo discursos rebuscados.

Pelo menos espero que não.

Mas existe alguma coisa de Sucupira em quase toda pequena cidade brasileira.

Os personagens mudam.

A essência permanece.

Na cidade pequena ninguém é completamente anônimo

Essa talvez tenha sido uma das maiores diferenças que percebi.

Na metrópole somos quase invisíveis.

Entramos no supermercado.

Compramos.

Pagamos.

Saímos.

Provavelmente ninguém lembrará de nós cinco minutos depois.

No interior, você entra na padaria:

— Bom dia!

E alguém responde pelo seu nome.

Perguntam como você está.

Perguntam por alguém da família.

Comentam o tempo.

Falam da chuva.

Perguntam se você viu o que aconteceu ontem.

Quando percebe, comprar pão virou um evento social.

E a notícia corre...

Corre muito.

Talvez essa seja uma das instituições mais eficientes das pequenas cidades.

A comunicação informal.

Não precisa de fibra óptica.

Não precisa de 5G.

Às vezes tenho a impressão de que determinados acontecimentos chegam ao outro lado da cidade antes mesmo de terminarem.

Alguém viu.

Alguém contou.

Outro acrescentou um detalhe.

Outro conhecia a pessoa envolvida.

E pronto.

A cidade inteira já possui uma versão.

Às vezes várias.

Existe sempre alguém que conhece alguém

Essa é outra característica fantástica.

Você precisa resolver alguma coisa.

Pergunta:

— Você conhece alguém que faça isso?

A resposta raramente é simplesmente não.

Normalmente vem:

— Conheço. O primo do marido da irmã de fulano faz.

E, surpreendentemente, funciona.

As relações no interior ainda possuem algo muito pessoal.

Existe uma rede invisível de contatos.

O eletricista conhece o encanador.

O padeiro conhece o pedreiro.

O advogado conhece alguém do cartório.

O dono da loja conhece alguém da prefeitura.

E provavelmente todos frequentam os mesmos lugares.

O prefeito deixa de ser uma figura distante

Em uma grande capital, o prefeito pode ser alguém que você conhece apenas pela televisão.

Em uma cidade pequena, talvez você o encontre tomando café.

Ou no mercado.

Ou em uma festa.

Ou numa cerimônia.

O mesmo acontece com vereadores e outras autoridades locais.

A distância institucional diminui.

Isso possui vantagens e desvantagens.

Mas é interessante perceber que o poder público ganha rosto.

Você sabe quem é.

E, provavelmente, sabe onde encontrá-lo.

O padre também faz parte da vida da cidade

Independentemente da religião de cada pessoa, em muitas cidades pequenas a igreja continua tendo forte presença comunitária.

O padre não é apenas alguém que aparece durante a missa.

Ele participa de festas.

Conhece famílias.

Conversa com comerciantes.

Acompanha acontecimentos da comunidade.

Da mesma maneira, pastores e outras lideranças religiosas acabam se tornando figuras conhecidas.

A cidade funciona como uma grande rede de relações que se cruzam continuamente.

A padaria talvez seja o verdadeiro centro de informações

Toda cidade pequena deveria reconhecer oficialmente esse patrimônio.

A padaria.

Ali circulam informações fundamentais.

Política.

Futebol.

Preço das coisas.

Chuva.

Estrada.

Quem chegou.

Quem foi embora.

Quem comprou uma casa.

Quem vendeu.

Quem está construindo.

Quem abriu um comércio.

Se quisermos compreender uma pequena cidade brasileira, talvez seja mais eficiente passar uma manhã na padaria do que ler dezenas de relatórios.

Existe também o personagem que sabe de tudo

Toda cidade possui pelo menos um.

Talvez vários.

Você comenta alguma coisa e ele já sabe.

Aliás, sabia antes de você.

Se perguntar sobre uma pessoa, ele conhece a família inteira.

Sabe quem era o avô.

Onde morava.

Com quem casou.

Quem comprou a antiga propriedade.

E provavelmente sabe por quanto foi vendida.

É quase um arquivo histórico ambulante.

Mas existe um lado muito bonito nisso

É fácil fazer piada com essa proximidade.

Mas ela também produz algo que as grandes cidades perderam em parte:

pertencimento.

Quando você frequenta os mesmos lugares, encontra as mesmas pessoas e começa a ser reconhecido, deixa lentamente de ser apenas alguém que mora naquele município.

Começa a fazer parte dele.

As pessoas percebem sua ausência.

— Você sumiu!

Perguntam se está tudo bem.

Sabem quando alguém está doente.

Oferecem ajuda.

Perguntam pela família.

Isso possui um valor enorme.

Naturalmente existe o outro lado

Privacidade é uma palavra relativa numa cidade pequena.

Se você gosta de anonimato absoluto, talvez precise se adaptar.

Porque alguém sempre viu.

Ou acha que viu.

Você troca de carro e alguém percebe.

Começa uma obra e alguém pergunta.

Viaja e alguém nota que a casa ficou fechada.

Volta e alguém pergunta:

— Foi viajar?

Não necessariamente por maldade.

Frequentemente é simplesmente curiosidade.

A vida comunitária produz proximidade.

E proximidade significa saber um pouco da vida uns dos outros.

A política ganha características próprias

Aqui talvez Sucupira apareça com maior força.

Em cidade pequena, política raramente é apenas ideologia.

Existe história.

Família.

Amizade.

Rivalidade.

Comércio.

Antigas alianças.

Novas alianças.

Fulano apoiava sicrano.

Agora apoia outro.

Um candidato é primo de alguém.

Outro estudou com determinada pessoa.

E as eleições municipais ganham uma intensidade impressionante.

A política não está distante.

Ela passa pela praça.

Os personagens fazem parte do charme

Depois de algum tempo você começa a identificar os tipos.

O comerciante que sabe tudo.

O sujeito que reclama da prefeitura independentemente de quem seja o prefeito.

O defensor apaixonado da administração.

O pescador.

O fazendeiro.

O recém-chegado da capital.

O morador cuja família está ali há gerações.

O contador de histórias.

O desconfiado.

O otimista.

O sujeito que começa qualquer conversa dizendo:

— Antigamente isso aqui...

É quase um elenco.

Dias Gomes entenderia perfeitamente.

Mas existe uma diferença fundamental

Sucupira era uma caricatura.

E caricaturas exageram características para que possamos enxergá-las melhor.

A vida real numa cidade pequena é muito mais complexa.

Existem profissionais altamente qualificados.

Empresários.

Professores.

Agricultores.

Trabalhadores.

Jovens conectados ao mundo inteiro.

Pessoas que chegaram das grandes cidades.

Famílias tradicionais.

Gente que nasceu ali e gente que escolheu viver ali.

O interior contemporâneo não está isolado do mundo.

A internet mudou completamente isso.

Podemos morar numa cidade de 13 mil habitantes e conversar com alguém do outro lado do planeta em segundos.

Talvez essa seja uma combinação interessante:

tecnologia global com relações locais.

Depois de viver numa metrópole, isso causa estranhamento

No começo, confesso, pode parecer curioso.

Você está acostumado a não conhecer ninguém.

De repente começa a cumprimentar pessoas na rua.

O atendente lembra de você.

O comerciante pergunta como está.

Alguém que você conheceu há meses acena do outro lado da praça.

E um dia acontece algo interessante.

Você percebe que também começou a reconhecer todo mundo.

— Aquele é fulano.

— Ali trabalha sicrano.

— Esse é o dono de tal lugar.

Pronto.

Sem perceber, você entrou para Sucupira.

E talvez eu goste disso

Depois de tantos anos vivendo em lugares onde milhões de pessoas se cruzam sem sequer se olhar, existe algo agradável em ser reconhecido.

Não precisamos ser amigos de todo mundo.

Não precisamos concordar com todo mundo.

Aliás, seria impossível.

Mas fazemos parte de uma comunidade.

Quando alguém pergunta:

— Tudo bem?

Às vezes realmente espera a resposta.

E isso está ficando raro.

Minha pequena Sucupira

Hoje olho para determinadas situações com humor.

O prefeito.

O padre.

O advogado.

O pessoal do cartório.

A padaria.

Os comerciantes.

As histórias.

As conversas.

As pequenas disputas.

Os personagens.

As notícias que atravessam a cidade em velocidade supersônica.

Às vezes parece mesmo uma versão moderna de Sucupira.

Só falta aparecer Odorico Paraguaçu na praça anunciando alguma obra:

“Meus queridos concidadãos sucupiranenses...”

Mas talvez seja justamente essa humanidade que torne a vida no interior tão interessante.

Porque aqui as pessoas ainda possuem nome.

Possuem história.

Possuem família.

Possuem reputação.

E acabam fazendo parte da nossa rotina.

Depois de algum tempo você deixa de dizer:

“a cidade onde estou morando.”

E começa a dizer:

“a nossa cidade.”

Talvez seja nesse momento que percebemos que a mudança terminou.

Já não somos apenas visitantes.

Viramos personagens também.

E em uma cidade de 13 mil habitantes, pode ter certeza:

alguém já sabe disso.

E a vida segue.

Marcuss Silva Reis
Vida que Segue

sábado, 10 de outubro de 2026

Um clube de campo pode ser muito mais do que lazer depois dos 60

 



Quando falamos em mudar para o interior depois dos 60 anos, existe uma preocupação legítima:

Será que não vamos ficar parados demais?

A tranquilidade é maravilhosa.

O silêncio faz bem.

Ter tempo para ler, refletir, contemplar e simplesmente não precisar correr o tempo inteiro é uma das grandes vantagens de uma vida mais tranquila.

Mas existe uma diferença importante entre desacelerar e parar.

O corpo precisa continuar em movimento.

A mente também.

E talvez as relações sociais precisem ainda mais.

Foi aí que comecei a perceber o valor que um bom clube de campo pode ter nessa fase da vida.

Não é apenas um lugar para fazer exercícios

Musculação.

Hidroginástica.

Alongamento.

Caminhadas.

Piscina.

Dependendo da estrutura, existem muitas possibilidades.

À primeira vista, poderíamos pensar que estamos falando simplesmente de uma academia maior.

Mas não é exatamente isso.

Um clube possui outra dinâmica.

Você pode chegar para fazer musculação e encontrar alguém conhecido.

Conversar alguns minutos.

Fazer sua atividade.

Depois tomar um café.

Encontrar outra pessoa.

Sentar.

Conversar novamente.

Talvez assistir a alguma atividade.

Talvez caminhar um pouco.

E aquilo que seria simplesmente uma hora de exercício se transforma em parte da vida social.

A musculação ganha importância com o passar dos anos

Depois dos 60, manter força muscular deixa de ser uma preocupação exclusivamente estética.

A perda progressiva de massa e força muscular associada ao envelhecimento pode comprometer equilíbrio, mobilidade, autonomia e capacidade para executar tarefas cotidianas.

Levantar de uma cadeira.

Subir escadas.

Carregar compras.

Entrar e sair do carro.

Caminhar com segurança.

Tudo isso depende de força.

Por isso, quando adequadamente orientado às condições individuais, o treinamento de força pode ser um importante aliado para preservar funcionalidade e independência.

Não estamos necessariamente treinando para levantar enormes cargas.

Estamos treinando para continuar levantando a nós mesmos durante muitos anos.

A hidroginástica tem outra característica

A água cria um ambiente interessante para exercícios.

O impacto sobre as articulações é reduzido, ao mesmo tempo em que a resistência da água permite trabalhar diferentes grupos musculares.

Mas existe algo que as tabelas de exercícios não mostram.

A hidroginástica é social.

As pessoas conversam.

Brincam.

Criam vínculos.

Percebem quando alguém faltou.

Perguntam se está tudo bem.

E isso tem um valor enorme.

Você vai fazer exercício e, quase sem perceber, passa a fazer parte de um grupo.

Alongar também significa preservar movimento

Com o passar dos anos, algumas tarefas aparentemente simples podem começar a exigir maior esforço.

Calçar um sapato.

Abaixar.

Alcançar alguma coisa.

Virar o corpo.

Levantar os braços.

Entrar no automóvel.

Por isso, atividades de mobilidade e alongamento, quando realizadas de forma apropriada, ajudam a preservar movimentos necessários à vida cotidiana.

Mais uma vez, o objetivo não precisa ser performance.

O objetivo é continuar funcional.

Mas talvez a atividade mais importante nem esteja na programação

Existe uma atividade que normalmente não aparece no quadro de horários do clube:

conversar.

O bate-papo antes da aula.

A conversa depois da hidroginástica.

O café.

A brincadeira.

A discussão sobre futebol.

A conversa sobre a cidade.

As histórias.

As novas amizades.

Isso também faz parte de envelhecer bem.

Porque podemos cuidar dos músculos e esquecer completamente de cuidar dos vínculos.

Um dos riscos do interior é o isolamento

Principalmente quando escolhemos morar em uma propriedade mais afastada.

A casa é maravilhosa.

A vista é espetacular.

Existe silêncio.

Natureza.

Privacidade.

Mas precisamos sair.

Precisamos encontrar pessoas.

Precisamos conversar com gente diferente.

O ser humano é social.

Por isso acredito que espaços como clubes, associações, grupos culturais, igrejas, atividades comunitárias e centros esportivos podem ganhar uma importância muito maior depois da mudança para uma cidade pequena.

Eles criam pontos de encontro.

E existe algo que gosto especialmente: o ritmo

Talvez essa seja uma das maiores diferenças que percebo em relação a determinadas academias de grandes centros.

Não existe aquela sensação permanente de que todos estão correndo.

Chegar.

Treinar.

Olhar o relógio.

Responder uma mensagem.

Terminar.

Tomar banho.

Ir embora.

Próximo compromisso.

No clube de campo, o ritmo pode ser diferente.

Você faz a atividade.

Mas existe espaço entre uma coisa e outra.

Existe conversa.

Existe pausa.

Existe convivência.

Tudo parece acontecer um pouco mais devagar.

E isso não significa fazer menos.

Significa fazer sem tanta pressa.

Você continua ativo sem transformar a vida em competição

Essa característica me agrada muito.

Depois de determinada idade, talvez não precisemos competir o tempo inteiro.

Nem conosco.

O importante pode ser simplesmente continuar.

Hoje fiz musculação.

Amanhã hidroginástica.

Outro dia alongamento.

Talvez uma caminhada.

Não precisamos estabelecer recordes.

Precisamos de constância.

O melhor exercício talvez não seja aquele que promete resultados extraordinários em poucas semanas.

Pode ser aquele que você gosta o suficiente para continuar fazendo durante anos.

Existe também uma rotina

Isso é importante principalmente depois da aposentadoria ou quando o trabalho deixa de ocupar todos os horários.

Durante décadas, nossa agenda é organizada por obrigações.

Segunda-feira significa uma coisa.

Terça outra.

Existem horários.

Compromissos.

Quando essa estrutura desaparece, algumas pessoas sentem um vazio.

Atividades regulares ajudam a reconstruir a semana.

Segunda tem musculação.

Terça tem hidro.

Quarta encontramos determinado grupo.

Quinta fazemos alongamento.

Não é obrigação.

É referência.

A semana volta a ter pequenos compromissos agradáveis.

E você começa a conhecer pessoas

Talvez esse seja um dos aspectos mais importantes para quem muda de cidade.

Construir novas relações depois dos 60 pode parecer difícil.

Não estamos mais na escola.

Talvez não estejamos trabalhando em uma empresa cheia de pessoas.

Os filhos possuem suas próprias vidas.

Como fazemos novas amizades?

Frequentando lugares.

Repetidamente.

É assim que alguém deixa de ser desconhecido.

Primeiro você cumprimenta.

Depois conversa.

Na semana seguinte conversa novamente.

Descobre interesses em comum.

Um dia toma café junto.

A amizade começa assim.

Manter-se “aceso”

Gosto dessa expressão.

Continuar aceso.

Não significa fingir que temos 30 anos.

Não precisamos ter.

Existe algo muito melhor do que tentar permanecer jovem:

permanecer vivo para a vida.

Ter curiosidade.

Ter compromissos.

Encontrar pessoas.

Movimentar o corpo.

Rir.

Conversar.

Aprender alguma coisa.

Ter vontade de sair de casa.

Ter motivo para colocar o tênis pela manhã.

Isso é estar aceso.

A tranquilidade do interior precisa de movimento

Talvez esse seja o equilíbrio.

Em casa encontramos silêncio.

Reflexão.

Natureza.

Contemplação.

No clube encontramos movimento.

Exercício.

Pessoas.

Conversas.

Risadas.

Uma coisa complementa a outra.

Silêncio demais pode virar isolamento.

Movimento demais pode virar exaustão.

O equilíbrio está em conseguir transitar entre os dois.

O luxo de poder fazer tudo sem correr

Talvez seja isso que mais me agrade.

Fazer musculação sem transformar aquilo em competição.

Entrar na piscina sem pensar em performance.

Alongar sem olhar o relógio a cada cinco minutos.

Terminar a atividade e ainda ficar conversando.

Tomar um café.

Voltar para casa.

Sem aquela sensação de que já estamos atrasados para a próxima obrigação.

Durante décadas vivemos correndo.

Talvez agora possamos experimentar outra maneira.

Continuar fazendo.

Continuar vivendo.

Continuar encontrando pessoas.

Continuar cuidando do corpo.

Mas em outro ritmo.

Mais devagar não significa parado.

Essa talvez seja uma das grandes descobertas dessa fase da vida.

Podemos diminuir a velocidade sem perder o movimento.

Podemos envelhecer sem apagar.

Podemos viver no interior sem nos isolar.

Podemos cuidar do corpo e, ao mesmo tempo, alimentar amizades.

E talvez um clube de campo represente exatamente isso:

um lugar onde vamos para movimentar os músculos...

e acabamos movimentando também a vida.

Porque depois dos 60, o objetivo não deveria ser apenas acrescentar anos à existência.

É tentar colocar vida dentro desses anos.

Sem tanta pressa.

No nosso ritmo.

Mas sempre acesos.

E a vida segue.

Marcuss Silva Reis
Vida que Segue

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Quando o silêncio do interior nos leva para dentro de nós mesmos

 



Hoje existem momentos em que fico tão envolvido com minhas próprias reflexões que simplesmente esqueço o que está acontecendo ao redor.

Não é tristeza.

Também não é solidão.

É como se, por alguns instantes, todo o barulho externo diminuísse e eu conseguisse mergulhar em um lugar que durante muitos anos talvez tenha visitado pouco:

minha própria alma.

Viver no interior me proporcionou isso.

E quanto mais tempo passo aqui, mais percebo que o silêncio pode ter uma profundidade impressionante.

Mas existe uma condição.

Você precisa querer escutá-lo.

O silêncio pode ser desconfortável

Durante grande parte da vida fazemos exatamente o contrário.

Preenchemos todos os espaços.

Ligamos a televisão.

Pegamos o celular.

Colocamos música.

Conversamos.

Trabalhamos.

Saímos.

Procuramos alguma coisa para fazer.

Talvez porque ficar em silêncio nos coloque diante de alguém de quem não conseguimos escapar:

nós mesmos.

E esse encontro nem sempre é fácil.

Quando diminuem os ruídos externos, algumas perguntas começam a aparecer.

Estou feliz com a vida que construí?

Fiz aquilo que realmente queria?

Quem permanece ao meu lado?

De quem sinto falta?

O que perdi?

O que conquistei?

Quem eu magoei?

Quem me magoou?

O que ainda preciso perdoar?

O que ainda preciso perdoar em mim?

São perguntas que não costumam aparecer no meio de um congestionamento.

Elas precisam de espaço.

O interior oferece esse espaço

Aqui, muitas vezes, existe tempo para pensar.

Tempo de verdade.

Não aqueles cinco minutos entre um compromisso e outro.

Você pode sentar.

Olhar para as montanhas.

Observar uma chuva chegando.

Tomar café.

Caminhar.

Ou simplesmente não fazer nada.

E quando o corpo desacelera, alguma coisa dentro de nós também começa a mudar de velocidade.

Os pensamentos aparecem.

As lembranças aparecem.

Algumas boas.

Outras nem tanto.

E começa uma viagem.

Não uma viagem pela estrada.

Uma viagem para dentro.

Às vezes parece uma sessão de terapia

Faço essa comparação com cuidado.

Morar no interior não substitui psicoterapia nem acompanhamento profissional quando eles são necessários.

Mas existe algo semelhante na experiência da reflexão profunda.

Em uma boa sessão de terapia, somos convidados a olhar para coisas que normalmente evitamos.

Algumas descobertas são agradáveis.

Outras incomodam.

Algumas doem.

Outras libertam.

O silêncio pode fazer algo parecido.

Ele nos dá espaço para ouvir pensamentos que o barulho cotidiano consegue esconder.

Por isso existem dias em que essa experiência é extremamente prazerosa.

E existem outros em que não é.

Nem toda reflexão traz conforto

Isso é importante.

Existe uma visão romantizada segundo a qual basta morar diante das montanhas, acender uma lareira e imediatamente encontrar paz interior.

Não funciona assim.

Às vezes o silêncio traz paz.

Às vezes traz perguntas.

Às vezes traz saudade.

Às vezes traz arrependimento.

Às vezes nos lembra de pessoas que já não estão aqui.

De relacionamentos que terminaram.

De oportunidades perdidas.

De decisões que gostaríamos de ter tomado de outra maneira.

O silêncio não seleciona apenas aquilo que queremos lembrar.

Ele abre a porta.

E nossa história entra.

Mas também entram as coisas boas

E felizmente são muitas.

Lembramos de pessoas.

De viagens.

De encontros.

De conquistas.

De momentos que pareciam pequenos quando aconteceram e hoje percebemos como foram importantes.

Começamos a compreender melhor nossa própria trajetória.

Talvez até reconhecer méritos que nunca reconhecemos.

Sobrevivemos a coisas que pareciam impossíveis.

Construímos alguma coisa.

Ajudamos alguém.

Amamos.

Fomos amados.

Caímos.

Levantamos.

E continuamos.

Às vezes precisamos de silêncio para perceber a dimensão da estrada que já percorremos.

Aqui também existe tempo para rezar

Para quem tem fé, o silêncio oferece ainda outra possibilidade.

A oração muda quando não estamos com pressa.

Podemos rezar sem simplesmente repetir palavras.

Podemos agradecer.

Perguntar.

Pedir.

Ou permanecer em silêncio.

Talvez algumas das orações mais profundas sejam justamente aquelas em que quase não dizemos nada.

Apenas ficamos ali.

Cada pessoa vive sua espiritualidade de maneira diferente.

Mas acredito que a natureza possui uma capacidade extraordinária de nos lembrar que fazemos parte de alguma coisa muito maior do que nossas preocupações cotidianas.

Olhar para uma montanha coloca determinados problemas em perspectiva.

Observar um céu cheio de estrelas também.

Meditar não precisa ser complicado

Existe ainda a meditação.

Muita gente imagina que meditar exige técnicas complexas.

Pode exigir, dependendo da prática.

Mas existe uma forma muito simples de presença.

Sentar.

Respirar.

Ouvir.

Perceber o vento.

Sentir a temperatura.

Observar os pensamentos chegando sem necessariamente correr atrás de todos eles.

Durante alguns minutos, apenas estar onde estamos.

Pode parecer pouco.

Para quem passou décadas correndo, é muita coisa.

O maior encontro talvez seja conosco

Existe uma pergunta que comecei a considerar com mais frequência:

quanto tempo da nossa vida realmente passamos conosco?

Parece uma pergunta absurda.

Estamos conosco o tempo inteiro.

Mas será?

Grande parte da vida estamos desempenhando papéis.

Profissional.

Pai.

Mãe.

Marido.

Esposa.

Professor.

Empresário.

Amigo.

Cliente.

Vizinho.

Passamos décadas respondendo ao que as circunstâncias esperam de nós.

Quando todos esses papéis diminuem um pouco de volume, aparece uma pergunta interessante:

Quem sou eu quando não preciso representar nenhum deles?

Essa resposta talvez leve anos.

Talvez uma vida inteira.

Envelhecer também pode ser uma viagem interior

Costumamos associar envelhecimento a perdas.

Perda de velocidade.

De força.

De determinadas possibilidades.

Mas existe outra dimensão que raramente discutimos.

A possibilidade de profundidade.

Aos 20 anos temos muita energia e pouca história.

Depois dos 60 carregamos décadas de experiências.

Pessoas.

Lugares.

Vitórias.

Fracassos.

Amores.

Perdas.

Decisões.

Tudo isso está dentro de nós.

Talvez a maturidade seja justamente a fase em que finalmente temos material suficiente para começar a compreender nossa própria história.

Mas existe uma condição: você precisa querer fazer essa viagem

Morar no interior não transforma ninguém automaticamente.

É perfeitamente possível viver diante de uma montanha e passar o dia inteiro olhando para uma tela.

É possível morar cercado de natureza e continuar vivendo na mesma velocidade da cidade.

É possível preencher cada minuto com televisão, celular, internet e compromissos.

O silêncio não invade.

Ele convida.

Cabe a nós aceitar.

Podemos olhar para a montanha.

Ou podemos olhar para o telefone.

Podemos caminhar prestando atenção ao caminho.

Ou caminhar respondendo mensagens.

Podemos sentar durante vinte minutos sem fazer nada.

Ou imediatamente procurar alguma distração.

A escolha é nossa.

Existe coragem em olhar para dentro

Talvez por isso algumas pessoas evitem o silêncio.

Nem sempre gostamos daquilo que encontramos.

Mas autoconhecimento não significa descobrir apenas coisas bonitas sobre nós mesmos.

Significa reconhecer contradições.

Limitações.

Erros.

Medos.

Vaidades.

Também reconhecer qualidades.

Forças.

Valores.

Tudo aquilo que nos trouxe até aqui.

Quanto mais conseguimos olhar para nós mesmos sem fugir, mais compreendemos quem somos.

E talvez fiquemos um pouco mais livres.

Hoje valorizo esses momentos

Existem horas em que me sento e simplesmente penso.

Uma lembrança leva a outra.

Uma pergunta leva a outra.

Quando percebo, muito tempo passou.

Mas não considero esse tempo perdido.

Pelo contrário.

Talvez seja um dos momentos em que estou mais presente.

Não estou produzindo.

Não estou resolvendo problemas.

Não estou respondendo mensagens.

Estou apenas conversando comigo mesmo.

Às vezes essa conversa é agradável.

Às vezes é difícil.

Como uma boa sessão de terapia.

O interior não resolveu minha vida

E acho importante dizer isso.

Nenhum lugar resolve nossa vida.

Problemas viajam conosco.

Memórias também.

Nossas inseguranças não desaparecem quando atravessamos uma placa indicando o limite de uma cidade pequena.

Mas determinados lugares criam condições melhores para ouvirmos aquilo que carregamos.

Para mim, o interior proporcionou isso.

Menos ruído externo.

Mais espaço interno.

Talvez o verdadeiro silêncio não esteja do lado de fora

No começo pensamos que procuramos silêncio porque estamos cansados de buzinas, trânsito e barulho.

Depois percebemos que existe outro silêncio.

Muito mais profundo.

Aquele momento em que conseguimos diminuir também o barulho dentro da cabeça.

Nem sempre conseguimos.

Mas quando acontece, existe uma sensação difícil de explicar.

Você simplesmente está ali.

Respirando.

Olhando.

Pensando.

Agradecendo.

Talvez rezando.

Sem necessidade de chegar a lugar algum.

Essa viagem não exige passagem

Talvez uma das viagens mais longas da nossa vida seja justamente aquela que fazemos para dentro de nós.

Não precisamos de aeroporto.

Não precisamos de mala.

Não precisamos de reserva.

Precisamos de tempo.

Silêncio.

E alguma coragem.

A paisagem ajuda.

As montanhas ajudam.

A chuva ajuda.

Uma caminhada ajuda.

Mas a porta continua sendo nossa.

Podemos abri-la ou não.

Hoje, algumas vezes, passo horas envolvido com minhas reflexões.

E percebo que talvez esteja finalmente conhecendo alguém com quem convivi durante toda a minha vida, mas para quem nem sempre tive tempo suficiente:

eu mesmo.

Talvez essa seja uma das grandes oportunidades da maturidade.

Depois de passar tantos anos conhecendo o mundo, chega um momento em que podemos começar uma viagem em outra direção.

Para dentro.

Pode ser prazerosa.

Pode ser difícil.

Pode trazer lágrimas.

Pode trazer paz.

Pode trazer respostas.

E pode trazer novas perguntas.

Mas talvez valha a viagem.

Claro...

se você quiser fazê-la.

E a vida segue.

Marcuss Silva Reis
Vida que Segue

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Há um tempo em que começamos a pensar no que já vivemos — e no que ainda queremos viver

 



Chega um momento da vida em que começamos a olhar para o tempo de uma maneira diferente.

Não sei exatamente quando isso acontece.

Talvez depois dos 50.

Talvez depois dos 60.

Talvez aconteça quando os filhos crescem, quando nos aposentamos, quando mudamos de cidade, quando perdemos alguém importante ou simplesmente quando a vida finalmente diminui um pouco o volume e conseguimos ouvir nossos próprios pensamentos.

O fato é que um dia olhamos para trás e percebemos:

já vivemos muita coisa.

E quase imediatamente surge outra pergunta:

o que queremos viver daqui para frente?

Olhar para trás não significa querer voltar

Existe uma diferença importante entre recordar e viver no passado.

Recordar faz parte da nossa história.

Existem lugares que nunca esquecemos.

Pessoas.

Amores.

Amizades.

Trabalhos.

Viagens.

Conquistas.

Fracassos.

Decisões certas.

E algumas decisões que hoje provavelmente tomaríamos de outra maneira.

Tudo isso nos trouxe até aqui.

Não precisamos apagar as partes ruins para reconhecer as boas.

Também não precisamos transformar o passado em um lugar perfeito.

Ele não foi.

Houve dias maravilhosos.

E houve dias muito difíceis.

A vida real sempre foi assim.

Algumas escolhas deram certo. Outras não.

Talvez uma das liberdades que a maturidade nos ofereça seja poder admitir isso.

Erramos.

Confiamos em pessoas que não mereciam nossa confiança.

Desperdiçamos oportunidades.

Falamos quando deveríamos ter ficado em silêncio.

Ficamos em silêncio quando deveríamos ter falado.

Gastamos energia com coisas que hoje parecem pequenas.

Trabalhamos demais em determinados períodos.

Talvez tenhamos deixado pessoas importantes esperando.

Também acertamos.

Construímos.

Criamos.

Aprendemos.

Ajudamos pessoas.

Amamos.

Fomos amados.

Superamos situações que, quando aconteceram, pareciam impossíveis de superar.

E continuamos aqui.

O passado não pode ser editado

Essa talvez seja uma das verdades mais difíceis e, ao mesmo tempo, mais libertadoras da vida.

Não podemos voltar.

Não existe botão para desfazer.

Não podemos ter novamente 30 anos levando conosco a experiência que temos aos 60.

Se fosse possível, provavelmente faríamos muita coisa diferente.

Mas talvez também cometêssemos outros erros.

A vida não oferece segunda edição.

Ela oferece continuação.

E isso muda tudo.

Porque se não podemos alterar aquilo que já aconteceu, ainda podemos decidir o que faremos com aquilo que aprendemos.

O que realmente valeu a pena?

Essa é uma pergunta interessante para fazer quando já temos uma longa estrada percorrida.

Quando penso nas coisas que realmente permaneceram, percebo que muitas delas não têm relação com aquilo que parecia tão importante na época.

Alguns problemas que tiraram nosso sono desapareceram completamente.

Algumas pessoas que tentávamos impressionar nem fazem mais parte da nossa vida.

Objetos que desejamos durante meses foram comprados, utilizados e esquecidos.

Discussões que pareciam fundamentais perderam qualquer significado.

Enquanto isso, permanecem coisas aparentemente pequenas.

Uma conversa.

Uma viagem.

Um abraço.

Uma pessoa que acreditou em nós.

Um almoço em família.

Uma tarde qualquer que, por algum motivo, virou memória.

É curioso.

Passamos boa parte da vida correndo atrás de coisas grandes.

E quando olhamos para trás descobrimos que a memória guardou principalmente os pequenos momentos.

E então começamos a olhar para frente

Talvez essa seja a parte mais importante.

Refletir sobre o passado só faz sentido se essa reflexão nos ajudar a viver melhor o futuro.

Não importa se temos 50, 60, 70 ou 80 anos.

Enquanto existe vida, existe futuro.

Pode ser diferente daquele futuro que imaginávamos aos 20.

E provavelmente será.

Mas diferente não significa menor.

Ainda podemos conhecer lugares.

Aprender.

Ensinar.

Fazer amigos.

Mudar de cidade.

Começar projetos.

Escrever.

Plantar.

Viajar.

Estudar.

Amar.

Recomeçar.

Talvez algumas coisas precisem ser feitas mais devagar.

Tudo bem.

Devagar também é movimento.

O que ainda queremos viver?

Talvez valha a pena realmente responder essa pergunta.

Não como exercício filosófico.

Como planejamento de vida.

O que você ainda quer fazer?

Existe algum lugar que gostaria de conhecer?

Alguma pessoa que precisa procurar?

Alguma conversa que está adiando?

Algum projeto guardado?

Alguma coisa que sempre quis aprender?

Existe alguém de quem precisa se aproximar?

Existe alguém de quem talvez seja melhor se afastar?

Existe alguma coisa que precisa perdoar?

Ou alguma culpa da qual precisa finalmente se libertar?

São perguntas desconfortáveis.

Mas o tempo também serve para isso.

Talvez seja hora de carregar menos peso

Com o passar dos anos, começamos a entender que não precisamos levar tudo conosco.

Mágoas ocupam espaço.

Ressentimentos ocupam espaço.

Brigas antigas ocupam espaço.

Necessidade de aprovação ocupa espaço.

Relacionamentos que só produzem sofrimento ocupam espaço.

Existem pesos que carregamos durante tanto tempo que esquecemos que poderíamos simplesmente colocá-los no chão.

Nem tudo precisa acompanhar nossa próxima etapa.

Às vezes, seguir em frente exige deixar alguma coisa para trás.

Também precisamos aprender a dizer não

Durante muitos anos fazemos coisas porque esperam que façamos.

Participamos porque convidaram.

Aceitamos porque seria desagradável recusar.

Mantemos relações porque existem há muito tempo.

Seguimos determinados caminhos porque parecem socialmente corretos.

Com o tempo começamos a compreender que existe uma palavra extremamente importante:

não.

Não quero.

Não preciso.

Não me faz bem.

Não quero gastar meu tempo com isso.

Não é egoísmo.

É perceber que o tempo disponível não é infinito.

Depois de certa idade, tempo passa a ser patrimônio

Quando somos jovens, protegemos dinheiro.

Mais tarde aprendemos que precisamos proteger também o tempo.

Dinheiro pode voltar.

Tempo não.

Cada tarde desperdiçada em uma discussão inútil desapareceu.

Cada dia vivido tentando agradar alguém que nunca estará satisfeito desapareceu.

Cada hora dedicada a uma preocupação sobre algo que não podemos controlar desapareceu.

Talvez por isso, com a maturidade, paz passe a valer tanto.

Não porque desistimos da vida.

Mas porque finalmente entendemos o preço do nosso tempo.

Ainda há muito pela frente

Existe um perigo quando começamos a refletir sobre tudo que já vivemos.

Transformar reflexão em despedida.

Não precisa ser assim.

Olhar para trás pode ser exatamente o contrário.

Pode ser uma maneira de perceber quantas vezes já recomeçamos.

Quantas situações superamos.

Quantos caminhos apareceram quando imaginávamos que não existia saída.

Se conseguimos chegar até aqui carregando tudo aquilo que vivemos, talvez ainda exista muita estrada interessante pela frente.

Talvez os próximos anos não precisem ser os mais produtivos

Talvez precisem ser os mais conscientes.

Não precisamos provar mais nada para tanta gente.

Podemos escolher melhor onde gastar energia.

Podemos trabalhar porque gostamos.

Estudar porque temos curiosidade.

Viajar sem precisar mostrar.

Ficar em casa sem sentir culpa.

Conversar sem olhar o relógio.

Tomar café devagar.

Observar o dia.

Ajudar alguém.

Transmitir aquilo que aprendemos.

Talvez essa seja uma das funções mais bonitas da maturidade:

transformar experiência em sabedoria compartilhada.

Se pudesse conversar com quem eu era aos 30 anos...

Provavelmente teria muita coisa para dizer.

Diria para não se preocupar tanto.

Diria que algumas pessoas irão embora.

Outras aparecerão.

Diria que determinados problemas que parecem gigantes vão desaparecer.

Diria para cuidar da saúde.

Para guardar dinheiro.

Para viajar.

Para trabalhar, mas não viver exclusivamente para o trabalho.

Para abraçar mais.

Para não perder tanto tempo tentando convencer pessoas que decidiram não ouvir.

E talvez dissesse uma coisa muito simples:

preste atenção enquanto sua vida está acontecendo.

Porque ela acontece depressa.

Mas não posso conversar com quem eu era

Posso conversar apenas com quem sou hoje.

E talvez isso seja suficiente.

Posso olhar para aquilo que vivi.

Agradecer pelo que foi bom.

Aprender com aquilo que não foi.

Aceitar o que não pode mais ser alterado.

E perguntar:

E agora?

Essa pergunta ainda está aberta.

O próximo capítulo ainda não foi escrito

Talvez essa seja a melhor maneira de enxergar o futuro depois dos 60.

Grande parte do livro já foi escrita.

Existem capítulos dos quais temos orgulho.

Outros que talvez preferíssemos não reler.

Há personagens que permaneceram.

Outros desapareceram.

Alguns voltaram inesperadamente.

Mas existe uma coisa importante:

a história ainda não terminou.

Há páginas em branco.

E enquanto houver páginas em branco, ainda podemos escolher algumas coisas.

Onde queremos morar.

Com quem queremos estar.

Como queremos utilizar nosso tempo.

O que queremos aprender.

O que ainda desejamos conhecer.

Que lembranças queremos construir.

E, principalmente, quem queremos ser daqui para frente.

O tempo de refletir também é o tempo de escolher

Talvez a maturidade seja exatamente isso.

Olhar para trás sem morar no passado.

Olhar para frente sem exigir garantias.

E conseguir permanecer um pouco mais no presente.

Porque o passado já aconteceu.

O futuro ainda não chegou.

Mas esta manhã, esta tarde, esta noite...

estas ainda são nossas.

Então talvez seja hora de diminuir a pressa.

Escol

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

No interior, parece que o tempo estica

 


Depois que fomos morar no interior, comecei a perceber uma coisa curiosa:

o dia parece mais comprido.

É evidente que isso não acontece de verdade.

O relógio continua marcando as mesmas 24 horas. Uma hora continua tendo sessenta minutos e o calendário não ficou mais devagar porque mudamos de endereço.

Mas a percepção mudou.

No interior, consigo sentir com muito mais clareza onde termina a manhã, onde começa a tarde e quando a noite finalmente chega.

Parece que o tempo voltou a ter divisões.

E talvez durante muitos anos eu simplesmente não tenha percebido isso.

A manhã realmente parece uma manhã

Existe algo especial nas primeiras horas do dia no interior.

A luz entra diferente.

Os pássaros começam antes de nós.

Dependendo da época do ano, existe neblina sobre as montanhas.

O ar está mais frio.

A rua ainda está quieta.

Você prepara um café e, se não houver necessidade de sair correndo, consegue simplesmente observar o dia começando.

Isso parece banal.

Mas não é.

Durante muitos anos, para mim, manhã significava principalmente uma sequência de obrigações.

Acordar.

Tomar banho.

Café.

Carro.

Trânsito.

Compromissos.

Telefone.

Trabalho.

Quando percebíamos, já era meio-dia.

A manhã existiu no relógio.

Mas talvez não tenha existido para nós.

No interior aprendemos novamente a olhar para a luz

Nas grandes cidades, passamos boa parte do tempo dentro de ambientes.

Casa.

Elevador.

Garagem.

Carro.

Escritório.

Shopping.

Restaurante.

Outro carro.

Outra garagem.

Nossa relação com o horário passa a depender muito mais do relógio do que da natureza.

No interior, principalmente quando se vive próximo às montanhas, a luz volta a participar da rotina.

Você percebe o sol mudando de posição.

Percebe a sombra chegando em determinado ponto do quintal.

Percebe quando a temperatura começa a subir.

Percebe o vento da tarde.

E começa a descobrir algo que nossos antepassados conheciam perfeitamente:

o dia tem personalidade.

A tarde tem outro ritmo

Talvez essa seja uma das maiores diferenças que percebi.

A tarde não parece simplesmente uma continuação da manhã.

Ela tem outra temperatura.

Outra luz.

Outros sons.

O movimento das pessoas muda.

Os pássaros mudam.

As sombras ficam maiores.

Em determinados dias da Mantiqueira, as nuvens começam a crescer sobre as montanhas e podemos quase acompanhar a transformação do tempo diante dos olhos.

Você olha para o céu.

Observa.

Espera.

Talvez venha chuva.

Talvez não.

E há algo profundamente humano nisso.

Não estamos fazendo nada extraordinário.

Estamos apenas prestando atenção.

Talvez o tempo não esteja passando mais devagar

Talvez sejamos nós que finalmente diminuímos a velocidade.

Essa diferença é importante.

O tempo nunca acelerou.

Nós aceleramos.

Criamos agendas.

Notificações.

Compromissos.

Mensagens.

Reuniões.

Trânsito.

Prazos.

Redes sociais.

Televisão.

Celular.

E passamos a preencher praticamente todos os espaços vazios do dia.

Se temos cinco minutos livres, pegamos o telefone.

Se esperamos alguma coisa, abrimos uma tela.

Se estamos sozinhos, colocamos algum som.

Criamos uma vida na qual quase não existe intervalo.

E sem intervalo, talvez seja difícil perceber o tempo.

Contemplar não é perder tempo

Durante boa parte da vida somos ensinados exatamente o contrário.

Ficar parado parece improdutivo.

Olhar pela janela parece perda de tempo.

Sentar para tomar café sem fazer outra coisa parece desperdício.

Observar uma chuva chegando não produz dinheiro.

Assistir ao pôr do sol não resolve nenhuma pendência.

Mas talvez tenhamos confundido produtividade com vida.

Existe uma diferença enorme entre não fazer nada e estar presente.

Contemplar é estar presente.

É perceber onde você está.

É ouvir.

É observar.

É permitir que alguns minutos existam sem precisar transformá-los em alguma coisa útil.

Comecei a perceber coisas que antes passavam despercebidas

A direção do vento.

Uma árvore começando a florir.

O comportamento dos pássaros antes da chuva.

O frio chegando no final da tarde.

A mudança da cor das montanhas conforme o sol desce.

O silêncio depois de uma chuva forte.

O céu ficando avermelhado.

As primeiras estrelas aparecendo.

Nada disso começou a acontecer depois que mudamos para o interior.

Sempre aconteceu.

Nós é que talvez estivéssemos ocupados demais para perceber.

E então chega o final da tarde

Para mim, existe um momento particularmente bonito.

O sol começa a baixar.

A temperatura diminui.

As montanhas mudam de cor.

As sombras avançam lentamente.

Os pássaros fazem seus últimos movimentos antes da noite.

E parece existir uma pequena pausa entre aquilo que foi o dia e aquilo que será a noite.

Nas cidades grandes, muitas vezes atravessamos esse momento dentro de um carro.

Presos no trânsito.

Olhando para a lanterna traseira do veículo da frente.

No interior, quando podemos observar essa transição, descobrimos que o entardecer é quase um acontecimento.

E acontece todos os dias.

De graça.

A noite também voltou a ser noite

Outra coisa que percebi foi a escuridão.

Nas grandes cidades, a noite nunca chega completamente.

Há iluminação pública, prédios, letreiros, faróis, vitrines e uma luminosidade permanente refletida no céu.

No interior, dependendo de onde estamos, a noite pode realmente ficar escura.

E com a escuridão aparece algo que muita gente quase esqueceu:

o céu.

As estrelas.

A Lua.

As nuvens passando diante dela.

Às vezes você simplesmente fica alguns minutos olhando para cima.

Não está esperando nada acontecer.

E talvez seja justamente por isso que aquele momento seja tão bom.

Talvez seja por isso que o dia parece maior

Quando vivemos muitas experiências diferentes dentro de um mesmo dia, nossa memória encontra referências.

A manhã fria.

O café.

O sol aparecendo.

O calor do meio-dia.

A chuva da tarde.

O entardecer.

O jantar.

A noite silenciosa.

São pequenos capítulos.

Quando tudo acontece dentro da mesma sequência de trânsito, trabalho, telas e compromissos, esses capítulos podem desaparecer.

O dia vira um bloco.

E blocos passam depressa.

Depois dos 60, o tempo ganha outro significado

Quando somos jovens, pensamos no tempo como algo praticamente infinito.

Ano que vem.

Daqui a cinco anos.

Depois eu faço.

Um dia eu vou.

Com o passar dos anos, começamos a compreender o tempo de outra maneira.

Não necessariamente com tristeza.

Talvez com mais respeito.

Cada manhã deixa de ser simplesmente a preparação para alguma coisa que acontecerá depois.

A própria manhã já é alguma coisa.

Uma tarde tranquila não precisa produzir resultados para ter valor.

E assistir ao pôr do sol pode ser um programa perfeitamente válido.

Talvez amadurecer seja também aprender isso.

O relógio mede horas. Nós medimos momentos.

Essa é a conclusão a que cheguei.

Continuamos tendo exatamente 24 horas.

Mas existem dias que desaparecem.

E existem dias que parecem enormes.

A diferença talvez esteja na quantidade de momentos que realmente percebemos.

Quando presto atenção ao café da manhã, à temperatura, às montanhas, ao vento, à chuva e ao anoitecer, parece que vivi muitas coisas.

Mesmo sem ter saído de casa.

Talvez seja por isso que o tempo pareça esticar no interior.

Não porque ele passe mais devagar.

Mas porque estamos finalmente presentes enquanto ele passa.

Aprender a contemplar o dia

Hoje acho que uma das maiores riquezas de morar no interior foi reaprender a acompanhar o dia.

Não apenas consultar as horas.

Acompanhar.

Ver a manhã nascer.

Sentir a tarde chegar.

Observar o sol descer.

Perceber quando a noite toma conta das montanhas.

É uma experiência simples.

Talvez simples demais para o mundo em que vivemos.

Mas existe uma paz enorme em perceber que não precisamos preencher todos os minutos.

Alguns minutos podem simplesmente ser vividos.

O café pode esfriar um pouco.

O telefone pode esperar.

A mensagem pode ser respondida depois.

O sol está descendo atrás da montanha.

E ele não vai repetir exatamente aquele pôr do sol amanhã.

Então talvez valha a pena olhar.

Porque o tempo não parou.

O tempo nunca para.

Nós é que finalmente paramos para vê-lo passar.

E a vida segue.

Vida que Segue
Marcuss Silva Reis

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Mudamos para o interior — e nosso custo de vida despencou



Quando decidimos deixar a cidade grande e mudar para o interior, imaginávamos que algumas despesas diminuiriam.

O que não esperávamos era perceber uma mudança muito maior.

Nosso custo de vida despencou.

E, olhando hoje para essa experiência, percebo que isso não aconteceu apenas porque determinadas coisas são mais baratas no interior.

A principal transformação foi outra:

mudou a maneira como vivemos — e, consequentemente, a maneira como gastamos dinheiro.

A cidade grande cria despesas que quase não percebemos

Quem vive durante muitos anos em uma metrópole acaba incorporando determinados gastos à rotina.

Eles parecem normais.

Estacionamento.

Combustível.

Pedágios.

Aplicativos de transporte.

Restaurantes.

Delivery.

Shopping.

Cafés.

Pequenas compras feitas por conveniência.

Serviços mais caros.

E existe ainda um custo particularmente difícil de colocar numa planilha:

o custo da pressa.

Quando tudo precisa ser resolvido rapidamente, frequentemente pagamos para economizar tempo.

Pedimos comida porque chegamos cansados.

Pagamos estacionamento porque não existe alternativa.

Compramos em determinado estabelecimento porque é o único que conseguimos acessar naquele momento.

Pagamos mais caro por conveniência.

Individualmente, são pequenas despesas.

Somadas durante um mês, podem representar muito dinheiro.

No interior começamos a viver de outra maneira

Depois da mudança, percebemos algo curioso.

Não foi necessário fazer um grande plano de redução de despesas.

Elas simplesmente começaram a cair.

Algumas desapareceram.

Outras diminuíram bastante.

E muitas deixaram de fazer sentido.

Passamos a cozinhar mais em casa.

Ir ao supermercado deixou de ser uma operação logística.

Não precisamos pensar o tempo inteiro onde estacionar.

Determinados deslocamentos ficaram menores.

Começamos a consumir mais produtos locais.

E atividades que antes exigiam dinheiro passaram a não custar praticamente nada.

Uma caminhada.

Um café em casa.

Sentar do lado de fora.

Conversar.

Cuidar das plantas.

Observar as montanhas.

Parece pouco.

Mas existe uma diferença econômica importante aí.

Na cidade grande, frequentemente pagamos para descansar da própria cidade

Essa talvez seja uma das maiores contradições da vida urbana.

Trabalhamos muito.

Enfrentamos trânsito.

Barulho.

Pressa.

Filas.

Compromissos.

Chegamos ao final da semana cansados.

E então gastamos dinheiro para compensar o desgaste.

Restaurante.

Shopping.

Viagem.

Hotel.

Passeio.

Delivery.

Entretenimento.

Nada disso é errado. Eu continuo gostando de muitas dessas coisas.

A diferença é perceber que, em determinados momentos, consumimos também como uma forma de compensação.

No interior, parte dessa necessidade diminuiu.

Quando sua casa já proporciona tranquilidade, talvez você não precise fugir dela todo fim de semana.

Isso altera profundamente o orçamento.

Moradia pode fazer uma diferença enorme

Dependendo da cidade escolhida, o custo da habitação pode ser significativamente menor do que em grandes centros urbanos.

O valor necessário para comprar ou alugar determinado imóvel em uma capital pode permitir uma propriedade muito diferente no interior.

Mais espaço.

Quintal.

Garagem.

Área externa.

Talvez uma vista que, em uma grande cidade, estaria associada a um imóvel de alto padrão.

Mas é preciso fazer uma ressalva.

Interior não significa necessariamente barato.

Cidades turísticas, regiões próximas das capitais e municípios muito valorizados podem apresentar imóveis caros.

Por isso, a comparação precisa ser feita cidade por cidade.

O automóvel apresenta uma conta interessante

Aqui existe uma aparente contradição.

Em muitas cidades do interior, o carro é praticamente indispensável.

Isso poderia sugerir um custo maior.

Na prática, entretanto, nossa experiência mostrou outro lado.

Podemos usar o automóvel para praticamente tudo, mas muitas vezes percorremos distâncias menores e enfrentamos menos congestionamentos.

Na metrópole, alguns quilômetros podem representar uma hora dentro do carro.

E o custo não está apenas no combustível.

Há estacionamento, desgaste mecânico, pequenas colisões, tempo perdido e o estresse associado ao deslocamento.

No interior, a relação com o automóvel pode ser diferente.

Naturalmente, quem mora muito distante da área urbana precisa colocar na conta combustível, manutenção e deslocamentos maiores.

Mais uma vez, localização faz toda a diferença.

Existe também o custo de manter um determinado padrão social

Esse assunto é pouco discutido.

Grandes centros oferecem uma quantidade extraordinária de opções de consumo.

Isso é uma vantagem.

Mas também significa que somos permanentemente estimulados a consumir.

Um restaurante novo.

Uma loja.

Um lançamento.

Um evento.

Um shopping.

Uma promoção.

Uma experiência.

Quando mudamos para uma cidade menor, muitos desses estímulos simplesmente desaparecem.

E descobrimos uma coisa interessante:

não sentimos falta de grande parte deles.

Não significa abandonar conforto.

Significa começar a distinguir conforto de consumo.

São coisas diferentes.

Mas nem tudo é mais barato no interior

Seria desonesto afirmar isso.

Existem produtos que podem custar mais.

A oferta de determinados serviços é menor.

Especialistas podem estar em outra cidade.

Alguns exames médicos exigem deslocamento.

Dependendo de onde você mora, entregas podem ser mais demoradas ou caras.

Casas maiores também têm manutenção.

Quem possui terreno precisa cuidar dele.

Estradas rurais podem aumentar o desgaste do automóvel.

E existe uma despesa particularmente importante depois dos 60:

saúde.

Se for necessário viajar frequentemente para outra cidade em busca de médicos e exames, essa despesa precisa entrar na conta.

Portanto, não basta comparar aluguel e supermercado.

É necessário calcular o custo completo da vida.

A maior economia talvez não esteja na planilha

Depois de algum tempo vivendo no interior, comecei a perceber que a mudança mais importante não estava necessariamente nos preços.

Estava na relação com o dinheiro.

Passamos a precisar de menos coisas para sentir que tivemos um bom dia.

Isso é muito poderoso.

Se uma tarde agradável depende de dirigir cinquenta quilômetros, estacionar, entrar em um shopping, almoçar, fazer compras e voltar para casa, existe um custo.

Se uma tarde agradável pode ser tomar um café olhando as montanhas, existe outro.

E não estou dizendo que uma experiência é superior à outra.

Estou dizendo que elas possuem estruturas de custo completamente diferentes.

Quanto custa o seu tempo?

Essa talvez seja a pergunta econômica mais interessante.

Nas grandes cidades, perdemos muitas horas em deslocamentos.

Uma hora para ir.

Uma hora para voltar.

Às vezes mais.

Quando multiplicamos isso por cinco dias, quatro semanas e doze meses, descobrimos uma quantidade impressionante de vida passada dentro de automóveis, ônibus ou trens.

Tempo também é um recurso econômico.

Ele é finito.

Dinheiro perdido pode ser recuperado.

Tempo, não.

Quando mudamos para o interior, não diminuímos apenas determinadas despesas.

Em muitos aspectos, recuperamos tempo.

Depois dos 60, essa conta fica ainda mais importante

Em determinada fase da vida, começamos a perceber que acumular patrimônio continua sendo importante, mas preservar qualidade de vida passa a ter um peso diferente.

Se conseguimos diminuir despesas fixas, precisamos de menos renda para manter o mesmo nível de conforto.

Isso pode significar maior tranquilidade financeira.

Uma aposentadoria rende mais.

As reservas duram mais.

Existe maior margem para imprevistos.

Podemos direcionar dinheiro para saúde, viagens, família ou simplesmente mantê-lo investido.

Em economia existe um princípio simples:

não importa apenas quanto você ganha. Importa quanto precisa gastar para manter a vida que deseja.

Talvez essa seja uma das grandes vantagens econômicas de viver no interior.

O perigo de levar a cidade grande na mudança

Existe, porém, uma armadilha.

Mudar de endereço sem mudar hábitos.

Se alguém compra uma propriedade enorme, mantém vários automóveis, viaja constantemente para a capital, continua consumindo exatamente da mesma maneira e acrescenta os custos de manutenção de uma casa grande, talvez a economia desapareça.

O interior não produz economia automaticamente.

Ele oferece a possibilidade de uma vida menos cara.

A escolha continua sendo nossa.

O que aconteceu conosco

Nossa experiência foi bastante clara.

Mudamos para o interior.

E nosso custo de vida caiu significativamente.

Mas hoje percebo que a explicação não está apenas no preço das coisas.

Gastamos menos porque nossa rotina mudou.

Precisamos de menos deslocamentos.

Temos menos estímulos ao consumo.

Encontramos prazer em coisas mais simples.

E descobrimos que qualidade de vida e custo de vida nem sempre caminham na mesma direção.

Às vezes acontece exatamente o contrário.

Gastamos menos e vivemos melhor.

Talvez riqueza também seja precisar de menos

Durante boa parte da vida somos ensinados a pensar que melhorar de vida significa poder consumir cada vez mais.

Hoje vejo de outra maneira.

Existe outra forma de riqueza.

Ter tempo.

Ter silêncio.

Ter espaço.

Dormir bem.

Não passar horas no trânsito.

Conseguir pagar as contas sem ansiedade.

Poder tomar café sem olhar para o relógio.

E descobrir que um bom dia não precisa necessariamente custar dinheiro.

Talvez a mudança para o interior tenha nos ensinado exatamente isso.

Não ficamos mais ricos porque tudo ficou barato.

Ficamos mais livres porque percebemos que precisávamos de menos para viver bem.

E, quando essa conta fecha, acontece algo interessante:

o custo de vida diminui...

e a vida parece aumentar.

Vida que Segue.

Marcuss Silva Reis

Moramos na terra do lobisomem: os causos e mistérios de Joanópolis

  Quando decidimos mudar para Joanópolis, procurávamos muitas das coisas sobre as quais tenho escrito ultimamente. Silêncio. Montanhas. Uma ...