Hoje existem momentos em que fico tão envolvido com minhas próprias reflexões que simplesmente esqueço o que está acontecendo ao redor.
Não é tristeza.
Também não é solidão.
É como se, por alguns instantes, todo o barulho externo diminuísse e eu conseguisse mergulhar em um lugar que durante muitos anos talvez tenha visitado pouco:
minha própria alma.
Viver no interior me proporcionou isso.
E quanto mais tempo passo aqui, mais percebo que o silêncio pode ter uma profundidade impressionante.
Mas existe uma condição.
Você precisa querer escutá-lo.
O silêncio pode ser desconfortável
Durante grande parte da vida fazemos exatamente o contrário.
Preenchemos todos os espaços.
Ligamos a televisão.
Pegamos o celular.
Colocamos música.
Conversamos.
Trabalhamos.
Saímos.
Procuramos alguma coisa para fazer.
Talvez porque ficar em silêncio nos coloque diante de alguém de quem não conseguimos escapar:
nós mesmos.
E esse encontro nem sempre é fácil.
Quando diminuem os ruídos externos, algumas perguntas começam a aparecer.
Estou feliz com a vida que construí?
Fiz aquilo que realmente queria?
Quem permanece ao meu lado?
De quem sinto falta?
O que perdi?
O que conquistei?
Quem eu magoei?
Quem me magoou?
O que ainda preciso perdoar?
O que ainda preciso perdoar em mim?
São perguntas que não costumam aparecer no meio de um congestionamento.
Elas precisam de espaço.
O interior oferece esse espaço
Aqui, muitas vezes, existe tempo para pensar.
Tempo de verdade.
Não aqueles cinco minutos entre um compromisso e outro.
Você pode sentar.
Olhar para as montanhas.
Observar uma chuva chegando.
Tomar café.
Caminhar.
Ou simplesmente não fazer nada.
E quando o corpo desacelera, alguma coisa dentro de nós também começa a mudar de velocidade.
Os pensamentos aparecem.
As lembranças aparecem.
Algumas boas.
Outras nem tanto.
E começa uma viagem.
Não uma viagem pela estrada.
Uma viagem para dentro.
Às vezes parece uma sessão de terapia
Faço essa comparação com cuidado.
Morar no interior não substitui psicoterapia nem acompanhamento profissional quando eles são necessários.
Mas existe algo semelhante na experiência da reflexão profunda.
Em uma boa sessão de terapia, somos convidados a olhar para coisas que normalmente evitamos.
Algumas descobertas são agradáveis.
Outras incomodam.
Algumas doem.
Outras libertam.
O silêncio pode fazer algo parecido.
Ele nos dá espaço para ouvir pensamentos que o barulho cotidiano consegue esconder.
Por isso existem dias em que essa experiência é extremamente prazerosa.
E existem outros em que não é.
Nem toda reflexão traz conforto
Isso é importante.
Existe uma visão romantizada segundo a qual basta morar diante das montanhas, acender uma lareira e imediatamente encontrar paz interior.
Não funciona assim.
Às vezes o silêncio traz paz.
Às vezes traz perguntas.
Às vezes traz saudade.
Às vezes traz arrependimento.
Às vezes nos lembra de pessoas que já não estão aqui.
De relacionamentos que terminaram.
De oportunidades perdidas.
De decisões que gostaríamos de ter tomado de outra maneira.
O silêncio não seleciona apenas aquilo que queremos lembrar.
Ele abre a porta.
E nossa história entra.
Mas também entram as coisas boas
E felizmente são muitas.
Lembramos de pessoas.
De viagens.
De encontros.
De conquistas.
De momentos que pareciam pequenos quando aconteceram e hoje percebemos como foram importantes.
Começamos a compreender melhor nossa própria trajetória.
Talvez até reconhecer méritos que nunca reconhecemos.
Sobrevivemos a coisas que pareciam impossíveis.
Construímos alguma coisa.
Ajudamos alguém.
Amamos.
Fomos amados.
Caímos.
Levantamos.
E continuamos.
Às vezes precisamos de silêncio para perceber a dimensão da estrada que já percorremos.
Aqui também existe tempo para rezar
Para quem tem fé, o silêncio oferece ainda outra possibilidade.
A oração muda quando não estamos com pressa.
Podemos rezar sem simplesmente repetir palavras.
Podemos agradecer.
Perguntar.
Pedir.
Ou permanecer em silêncio.
Talvez algumas das orações mais profundas sejam justamente aquelas em que quase não dizemos nada.
Apenas ficamos ali.
Cada pessoa vive sua espiritualidade de maneira diferente.
Mas acredito que a natureza possui uma capacidade extraordinária de nos lembrar que fazemos parte de alguma coisa muito maior do que nossas preocupações cotidianas.
Olhar para uma montanha coloca determinados problemas em perspectiva.
Observar um céu cheio de estrelas também.
Meditar não precisa ser complicado
Existe ainda a meditação.
Muita gente imagina que meditar exige técnicas complexas.
Pode exigir, dependendo da prática.
Mas existe uma forma muito simples de presença.
Sentar.
Respirar.
Ouvir.
Perceber o vento.
Sentir a temperatura.
Observar os pensamentos chegando sem necessariamente correr atrás de todos eles.
Durante alguns minutos, apenas estar onde estamos.
Pode parecer pouco.
Para quem passou décadas correndo, é muita coisa.
O maior encontro talvez seja conosco
Existe uma pergunta que comecei a considerar com mais frequência:
quanto tempo da nossa vida realmente passamos conosco?
Parece uma pergunta absurda.
Estamos conosco o tempo inteiro.
Mas será?
Grande parte da vida estamos desempenhando papéis.
Profissional.
Pai.
Mãe.
Marido.
Esposa.
Professor.
Empresário.
Amigo.
Cliente.
Vizinho.
Passamos décadas respondendo ao que as circunstâncias esperam de nós.
Quando todos esses papéis diminuem um pouco de volume, aparece uma pergunta interessante:
Quem sou eu quando não preciso representar nenhum deles?
Essa resposta talvez leve anos.
Talvez uma vida inteira.
Envelhecer também pode ser uma viagem interior
Costumamos associar envelhecimento a perdas.
Perda de velocidade.
De força.
De determinadas possibilidades.
Mas existe outra dimensão que raramente discutimos.
A possibilidade de profundidade.
Aos 20 anos temos muita energia e pouca história.
Depois dos 60 carregamos décadas de experiências.
Pessoas.
Lugares.
Vitórias.
Fracassos.
Amores.
Perdas.
Decisões.
Tudo isso está dentro de nós.
Talvez a maturidade seja justamente a fase em que finalmente temos material suficiente para começar a compreender nossa própria história.
Mas existe uma condição: você precisa querer fazer essa viagem
Morar no interior não transforma ninguém automaticamente.
É perfeitamente possível viver diante de uma montanha e passar o dia inteiro olhando para uma tela.
É possível morar cercado de natureza e continuar vivendo na mesma velocidade da cidade.
É possível preencher cada minuto com televisão, celular, internet e compromissos.
O silêncio não invade.
Ele convida.
Cabe a nós aceitar.
Podemos olhar para a montanha.
Ou podemos olhar para o telefone.
Podemos caminhar prestando atenção ao caminho.
Ou caminhar respondendo mensagens.
Podemos sentar durante vinte minutos sem fazer nada.
Ou imediatamente procurar alguma distração.
A escolha é nossa.
Existe coragem em olhar para dentro
Talvez por isso algumas pessoas evitem o silêncio.
Nem sempre gostamos daquilo que encontramos.
Mas autoconhecimento não significa descobrir apenas coisas bonitas sobre nós mesmos.
Significa reconhecer contradições.
Limitações.
Erros.
Medos.
Vaidades.
Também reconhecer qualidades.
Forças.
Valores.
Tudo aquilo que nos trouxe até aqui.
Quanto mais conseguimos olhar para nós mesmos sem fugir, mais compreendemos quem somos.
E talvez fiquemos um pouco mais livres.
Hoje valorizo esses momentos
Existem horas em que me sento e simplesmente penso.
Uma lembrança leva a outra.
Uma pergunta leva a outra.
Quando percebo, muito tempo passou.
Mas não considero esse tempo perdido.
Pelo contrário.
Talvez seja um dos momentos em que estou mais presente.
Não estou produzindo.
Não estou resolvendo problemas.
Não estou respondendo mensagens.
Estou apenas conversando comigo mesmo.
Às vezes essa conversa é agradável.
Às vezes é difícil.
Como uma boa sessão de terapia.
O interior não resolveu minha vida
E acho importante dizer isso.
Nenhum lugar resolve nossa vida.
Problemas viajam conosco.
Memórias também.
Nossas inseguranças não desaparecem quando atravessamos uma placa indicando o limite de uma cidade pequena.
Mas determinados lugares criam condições melhores para ouvirmos aquilo que carregamos.
Para mim, o interior proporcionou isso.
Menos ruído externo.
Mais espaço interno.
Talvez o verdadeiro silêncio não esteja do lado de fora
No começo pensamos que procuramos silêncio porque estamos cansados de buzinas, trânsito e barulho.
Depois percebemos que existe outro silêncio.
Muito mais profundo.
Aquele momento em que conseguimos diminuir também o barulho dentro da cabeça.
Nem sempre conseguimos.
Mas quando acontece, existe uma sensação difícil de explicar.
Você simplesmente está ali.
Respirando.
Olhando.
Pensando.
Agradecendo.
Talvez rezando.
Sem necessidade de chegar a lugar algum.
Essa viagem não exige passagem
Talvez uma das viagens mais longas da nossa vida seja justamente aquela que fazemos para dentro de nós.
Não precisamos de aeroporto.
Não precisamos de mala.
Não precisamos de reserva.
Precisamos de tempo.
Silêncio.
E alguma coragem.
A paisagem ajuda.
As montanhas ajudam.
A chuva ajuda.
Uma caminhada ajuda.
Mas a porta continua sendo nossa.
Podemos abri-la ou não.
Hoje, algumas vezes, passo horas envolvido com minhas reflexões.
E percebo que talvez esteja finalmente conhecendo alguém com quem convivi durante toda a minha vida, mas para quem nem sempre tive tempo suficiente:
eu mesmo.
Talvez essa seja uma das grandes oportunidades da maturidade.
Depois de passar tantos anos conhecendo o mundo, chega um momento em que podemos começar uma viagem em outra direção.
Para dentro.
Pode ser prazerosa.
Pode ser difícil.
Pode trazer lágrimas.
Pode trazer paz.
Pode trazer respostas.
E pode trazer novas perguntas.
Mas talvez valha a viagem.
Claro...
se você quiser fazê-la.
E a vida segue.
Marcuss Silva Reis
Vida que Segue