Quando decidimos mudar para Joanópolis, procurávamos muitas das coisas sobre as quais tenho escrito ultimamente.
Silêncio.
Montanhas.
Uma vida mais tranquila.
Tempo para pensar.
Contato com a natureza.
Uma cidade pequena onde as pessoas ainda se conhecem pelo nome.
Encontramos tudo isso.
Mas descobrimos também que viemos morar em um lugar onde existe um morador muito mais famoso do que todos os outros.
Um sujeito que, segundo os causos, prefere sair à noite.
Principalmente quando a lua está cheia.
O lobisomem.
Sim.
Hoje moramos na terra do lobisomem.
Ou, para utilizar o título pelo qual Joanópolis ficou conhecida:
a Capital do Lobisomem.
Aqui o lobisomem está em toda parte
Quem chega a Joanópolis não demora muito para perceber.
O lobisomem aparece no artesanato.
Nas histórias.
Nas placas.
Nos estabelecimentos.
Nos eventos culturais.
Nas conversas.
E até uma enorme figura da criatura recebe quem chega à cidade.
Aquilo que poderia ser apenas uma antiga superstição acabou transformado em elemento da identidade cultural e turística do município.
E existe uma história interessante por trás disso.
Tudo começa com os causos
Antes da internet, da televisão e das redes sociais, histórias viajavam de outra maneira.
Eram contadas.
Um avô contava para o neto.
Um trabalhador rural contava para outro.
Uma família repetia aquilo que alguém dizia ter visto numa estrada.
E assim os causos atravessavam gerações.
No interior brasileiro, principalmente em regiões rurais, histórias de assombrações, sacis, mulas-sem-cabeça e lobisomens fizeram parte do imaginário popular durante muito tempo.
Joanópolis desenvolveu uma relação particularmente forte com o último deles.
Tão forte que a criatura acabou se tornando praticamente um cidadão honorário da cidade.
E um dos fundadores de Joanópolis entrou na história
Existe um episódio particularmente curioso associado a Anselmo Caparica, personagem ligado à própria formação do povoado.
Registros históricos da Câmara Municipal mencionam Caparica entre aqueles que participaram da organização do núcleo que posteriormente daria origem ao município.
Mas o folclore acrescentou outro capítulo à sua biografia.
Segundo uma história transmitida na cidade e posteriormente relatada por pesquisadores do folclore local, numa noite de tempestade Anselmo teria saído para socorrer um cachorro.
Para se proteger da chuva, teria colocado sobre o corpo um tecido ou pano felpudo.
Quando se abaixou para pegar o animal, um relâmpago iluminou a cena.
Imagine por alguns segundos.
Noite.
Chuva.
Pouca iluminação.
Um homem muito alto.
Coberto por algo que parecia pelo.
Abaixado sobre um animal.
Um relâmpago.
Para quem observava à distância, a conclusão teria sido imediata:
“Seu Anselmo é lobisomem!”
Verdade?
Lenda?
Um acontecimento real que cresceu a cada vez que foi contado?
Talvez justamente aí esteja a beleza do folclore.
Em 1983, o lobisomem ganhou atenção acadêmica
A história poderia ter permanecido apenas nas conversas dos moradores.
Mas aconteceu algo importante.
A folclorista Maria do Rosário de Souza Tavares de Lima, ligada a uma família tradicional de Joanópolis, desenvolveu em 1983 um trabalho dedicado aos relatos sobre lobisomens existentes na região.
Ela pesquisou e registrou histórias contadas pelos moradores.
Esse trabalho posteriormente resultaria no livro Lobisomem: Assombração e Realidade.
Ou seja, alguém decidiu fazer algo extremamente importante para a memória de uma comunidade:
ouvir os mais velhos antes que suas histórias desaparecessem.
O lobisomem saiu das estradas e foi parar na televisão
A história ganhou outra dimensão em 1998.
Uma campanha publicitária nacional sobre lendas brasileiras utilizou Joanópolis como cenário para o tema do lobisomem, inclusive com participação de moradores.
A exposição ajudou a tornar nacionalmente conhecida uma tradição que até então estava muito mais associada à memória regional.
Foi nesse contexto que também surgiu a Associação dos Criadores de Lobisomem.
Calma.
Ninguém cria lobisomem no quintal.
Pelo menos oficialmente.
A proposta da associação é preservar o folclore, registrar histórias e utilizar esse patrimônio cultural como forma de divulgação da cidade.
E acho essa ideia extraordinariamente inteligente.
O monstro virou amigo
Talvez essa seja a parte de que mais gosto.
O lobisomem tradicional é uma criatura assustadora.
Um homem amaldiçoado que se transforma em fera.
Mas Joanópolis conseguiu fazer uma espécie de segunda transformação.
Depois de homem virar lobisomem...
o lobisomem virou personagem da cidade.
Deixou de ser apenas algo que provocava medo nas crianças e passou a aparecer no artesanato, no turismo e nas manifestações culturais.
Hoje existe quase uma relação afetiva entre Joanópolis e seu lobisomem.
O bicho que deveria assustar turistas acabou ajudando a atraí-los.
A cidade assumiu sua própria lenda
Isso ficou ainda mais evidente com iniciativas culturais recentes.
Em 2025, Joanópolis realizou o Festival da Lua Cheia, reunindo música, cultura caipira, oficinas, documentários e, naturalmente, contação de causos relacionados ao lobisomem.
Entre as atividades houve inclusive uma apresentação dedicada ao “Lobisomem como personagem em Joanópolis”.
É interessante observar isso.
Uma lenda que durante décadas circulou oralmente entre famílias e moradores passou a integrar formalmente a agenda cultural da cidade.
O folclore deixou de ser apenas memória.
Virou patrimônio vivo.
E morar aqui torna tudo mais divertido
Depois que você mora em Joanópolis, começa a olhar para determinadas coisas de maneira diferente.
Uma estrada rural à noite já não é simplesmente uma estrada rural.
Uma neblina descendo sobre as montanhas ganha outra atmosfera.
Um cachorro latindo insistentemente de madrugada...
Bem.
Melhor não investigar.
E numa noite de lua cheia, principalmente depois de ouvir alguns causos antigos, nossa imaginação começa a trabalhar.
Você sabe racionalmente que está ouvindo um animal no mato.
Mas uma pequena parte da cabeça pergunta:
“Será?”
É exatamente aí que a lenda continua viva.
Folclore não precisa ser verdadeiro para ser importante
Esse talvez seja o ponto central.
Não precisamos acreditar literalmente na existência de lobisomens para compreender a importância dessa história.
Folclore é memória coletiva.
É a maneira pela qual comunidades transmitiram medos, valores, crenças e experiências antes que tudo pudesse ser gravado, fotografado e colocado na internet.
Os causos contam muito sobre as pessoas que os contavam.
Sobre como viviam.
Sobre aquilo que temiam.
Sobre a relação que possuíam com a mata, com a noite, com os animais e com o desconhecido.
Por isso preservar uma lenda também significa preservar uma parte da história de um povo.
Hoje entendemos melhor o que significa morar no interior
Recentemente escrevi que numa cidade pequena todo mundo sabe quem é todo mundo.
O padre.
O prefeito.
O padeiro.
O advogado.
O pessoal do cartório.
Os comerciantes.
Os personagens da cidade.
E Joanópolis ainda acrescenta mais um à lista.
O lobisomem.
Talvez seja justamente isso que torne pequenas cidades tão interessantes.
Elas possuem personalidade.
Não são apenas conjuntos de ruas e casas.
Possuem histórias.
Apelidos.
Personagens.
Lendas.
Memórias.
Quando a lua cheia aparece sobre a Mantiqueira...
Existe algo especial numa noite de lua cheia na serra.
As montanhas viram enormes silhuetas.
A temperatura cai.
As estradas rurais ficam silenciosas.
A luz da Lua atravessa as árvores.
Para quem passou décadas vivendo sob a iluminação permanente de uma grande cidade, é uma experiência completamente diferente.
E quando você sabe que está justamente na cidade conhecida como Capital do Lobisomem, a imaginação inevitavelmente participa da paisagem.
Talvez algum morador mais antigo tenha um causo.
Talvez conheça alguém que conhecia alguém que viu alguma coisa.
Talvez jure que aconteceu.
E você pode acreditar.
Pode duvidar.
Pode rir.
Não importa.
Por alguns minutos, você participa da história.
E agora também somos moradores da terra do lobisomem
Quando chegamos, éramos apenas mais um casal vindo de fora em busca de uma vida diferente.
Pouco a pouco fomos conhecendo a cidade.
As pessoas.
Os lugares.
Os costumes.
As histórias.
E hoje acho divertido dizer:
moramos na terra do lobisomem.
Não sei se algum dia encontrarei um.
Confesso que não estou fazendo muito esforço para isso.
Se ouvir alguma coisa estranha numa estrada rural em noite de lua cheia, provavelmente continuarei dirigindo.
A curiosidade tem limites.
Mas gosto de saber que essa história existe.
Gosto de morar numa cidade que preserva seus causos.
Que consegue rir de si mesma.
Que transformou uma antiga criatura assustadora em símbolo de identidade.
Porque talvez seja exatamente disso que uma comunidade seja feita.
Não apenas de ruas.
Não apenas de prédios.
Não apenas de habitantes.
Mas de histórias que alguém contou...
que outro resolveu repetir...
e que um dia passaram a pertencer a todos.
Então, se algum dia você vier visitar Joanópolis e encontrar um lobisomem pelo caminho, não se assuste.
Talvez ele seja apenas mais um morador conhecido da cidade.
E provavelmente...
todo mundo já sabe quem ele é.
🌕🐺
E a vida segue.
Marcuss Silva Reis
Vida que Segue
Fontes de consulta
Câmara Municipal da Estância Turística de Joanópolis — História do Município.
Prefeitura Municipal da Estância Turística de Joanópolis — Festival da Lua Cheia e manifestações culturais relacionadas ao folclore local.
LIMA, Maria do Rosário de Souza Tavares de. Lobisomem: Assombração e Realidade.
Estudos acadêmicos sobre o uso do imaginário do lobisomem como patrimônio cultural e produto turístico de Joanópolis.
Reportagens e registros históricos sobre a Associação dos Criadores de Lobisomem e a tradição oral joanopolense.
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